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	<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 02:48:54 +0000</pubDate>
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		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:05 +0000</pubDate>

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	FICÇÃO


O Litoral
&#38;nbsp; De Lábios Fechados
A Casa de NeroO SubsoloVignettesAs Vidas dos Filósofos
*

NÃO-FICÇÃO
Ensaios para Umbigo Magazine︎︎︎
&#38;nbsp;Formas Fantasma

Uma Realidade Atroz, ou Banal

Quando Brota a Nua Rosa
Prole de Ícaro
No Eterno Instante: Arquitetura e o Sublime&#38;nbsp;

I.&#38;nbsp;A Solidão de NetunoII. A Sombra da Torre Invisível
III. O Meio-tom da InconsciênciaIV.&#38;nbsp;O Peso da Luz
V.&#38;nbsp;A Mente das MãosVI.&#38;nbsp;O Templo sem Deus


 

&#38;nbsp;
Zócalo
O Muro Como Habitar*
ENTREVISTAS
Ali Kazma: Uma Verdade Com a Qual Eu Possa Viver︎︎︎

Denilson Baniwa e Ritó Natálio: Construir a Travessia
*
TRADUÇÃO

Do Not Go Gentle Into That Good Night 
/ Não Vá Gentil Àquela Boa Noite
*
Fragmentos



Info/Sobre
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		<title>A Casa de Nero</title>
				
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		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:08 +0000</pubDate>

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A Casa de Nero



Quando também Belerofonte foi odiado por todos os deuses, vagueou, só, pela planície de Aleia, devorando seu próprio coração e evitando as veredas humanas. 
&#38;nbsp; Homero. Ilíada, Canto VI, vv. 200-3.


Em certos momentos, considerava o mal como um simples meio de poder realizar a sua concepção do belo. 
Oscar Wilde. O Retrato de Dorian Gray. 
CARTA I
Primavera Alta
Caro amigo sempre ao meu lado no sustento de anseios e espanto de temores, quando sob o disfarce de uma porta fechada dávamos livre expressão aos demônios de nossa luxúria, grande parceiro, salve Petrônio. Escrevo-te com o vulto de nossa conversa ainda vivo sobre mim, na noite em que o leite da lua imbuía tons proféticos à tua boca belicosa. Quanto tempo desde então. Ao menos recordas? Não importa, teu refino na fala sempre assombrou-me desta forma, velado sob o juízo dos outros — incluso o teu. Permita-me então retribuir nestas palavras forjadas apenas para ti. E que elas conservem o fio sincero ao vazar-te as entranhas. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Da sacada de meu quarto alongo os olhos sobre o dorso do império. Ao zênite, o sol de cobre apaga as sombras. Vejo a plebe trançada nas rugas metálicas do ar. Nas ruas áugures e sibilas cospem apocalipses à dois dupôndios, corsários vestem veludo em sua pompa admirável, cambistas induzem más apostas a turistas ávidos por deitar as rendas em peixes monstruosos e teatros navais, magistrados golpeiam à ponta da vareta as costas de alunos jocosos mais encantados pelos mamilos de gladiadores, apotecários galegos dizem curar a gota ou a inveja na revoluta de seus incensos, pastores deitam no lombo de cabras blocos de granito para imensas construções, bêbados riem-se sob uma máscara de saliva qual película repulsiva de sua miséria, escreventes analfabetos rabiscam o papel sob os balbucios de supostos exilados, cantores de goelas flamejantes e boca em bico melodiam vitórias impossíveis de povos inventados, o poeta senta-se no lancil sem saber o que dizer pois já o disse em mil e um poemas que nem à ele comovem, e nas ondas frisadas do porto mares de lamentável gentalha vêm à cidade em golfadas. No Fórum sob o bafo de bom vinho senadores martelam as têmporas alheias com palavras aladas visando justo ocultar o sentido da frase, farrapos de filosofias inválidas, rebuscado teatro do homem público. Em medidas estéreis nada alteram senão a largura de seus domínios. Quanto aos patrícios, entrevejo-os nos triclínios. Os mesmos convivas nas mesas baixas pesadas de maçãs com pimenta e ovos com mel, peixes, porcos, caracóis, polvos, ostras e vôngoles, vomitando-se uma vez mais nas urnas de metal e sob o tinir dos copos golfando os mesmos brindes a jovens demagogos cujos anseios não excedem à largura das moedas. Depois em devidos disfarces irão às margens do Tibre onde na ponte Milvius, mãe de todos os gozos, as meretrizes os banharão no curso impecável de seus prodígios. Amanhã correrão as ruas com um tropel de escravos ao encalço para lançar moedas nos colos de mendigos, seu metal reluzindo abundante sob o sol crescendo os olhos de toda a gente.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ai, Cidade Eterna. Eis a tua glória. Seus consensos arbitrários, dogmas ilusórios, ocorrências previsíveis. Sob o toldo deste insistente circo estendi as veredas de minha vida, não nego, e entre farsantes e filósofos extraí largos rompantes de alegria. Mas já não me apetece. O tempo desfez o relevo dos gestos humanos. Arenosos, lixam a textura de meu desejo. Nada a vida negou-me. Temo ter visto demais. Salvo raros encantos a vida tornou-se, toda ela, vasto tédio. Lacei o real e fácil demais ele rendeu-se às minhas rédeas. Sou ente grande em mundo pequeno, as bordas do horizonte constrangem meus cotovelos, sua insossa dinâmica sufoca-me. Seu curto repertório é o que ainda não cessa em me espantar. Mesmo o prazer da bebida e das orgias que tu tantas vezes idealizou agora parece escapar-me. Não leve à mal. Deliciei-me em ver bêbados sufocando sob o imenso volume das pétalas de rosa que fizeste cair em cascatas, da abertura zenital, na ocasião de meu aniversário. No entanto há um momento em que as novas festas tornam-se simulacros das anteriores e todas as suas volúpias perdem o sabor. Tudo me é familiar, perdeu-se o terror do estranho. Nada pesa. Nem mais a pele palpita, que dirá meu íntimo.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Portanto me excluo da esfera dos homens para lançar-me à outro tipo de aventura. Talvez pergunte-se, Petrônio, o que faz o infame Nero após abdicar das delícias terrenas. Como prospera no encanto de sua intimidade? Para responder-te peço. Não suponha. E acompanha a minha prosa. Ao déspota convém o conduzir dos estímulos. 


Há tempos guardo-me entre paredes. Nos cômodos de minha casa dourada suspendo o mundo e caio em mim. Aqui ainda há espaço. Cultivo o eco de um silêncio não ao todo distante do sagrado, nesta solenidade colhida nos vincos do exílio, onde na demora do ócio desfruto meus bocejos e desvendo todas as notas de meu hálito. Varo as noites de vela em riste alumiando os cantos de meus áureos salões. Contemplo as muitas coisas que coletei do mundo, as escassas lascas de encanto que à força extraí de sua carne para adornar a minha morada. É estranho. A falta de estímulos intensos afina os sentidos às mais gentis carícias. Corro os dedos sobre o bordado de uma túnica sidônica e seu fio de prata ressoa nas fibras de meu espírito. O delicado corta-me fundo demais. Tão débeis são as coisas em minhas mãos. E sob tal atrocidade consegui-las. A beleza, ardilosa, esplêndida meretriz, promete-nos a graça e desperta-nos cobiça. Quem vê o brilho da vela reluzir na orla de meu vaso fenício não supõe os litros de sangue que derramei para testemunhar este tímido espetáculo. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Pois das vias à beleza é a violência a mais poética. Sabes do meu fraco pelo teatro. Foi no palco da guerra onde encontrei arte das mais raras. Ali excita-se o tecido inerte e rompe as linfas estagnadas de nosso convívio numa comunhão humana secreta demais para ser exposta. Fui mãe, irmão e amante de todos que matei, pois no mais grave instante de suas vidas era eu quem estava lá, seu bafo em minha face, meus dedos trançando-lhes a cintura, o suor de pernas cruzadas. Se no furor de suas últimas raspas vitais primeiro corriam as toscas lembranças de uma vida banal, logo impunha-se uma experiência de magnitude antes inconcebível, quando desvelam-se os primeiros vislumbres do além e sua vastidão ainda é demasiado para o que de carnal subsiste no moribundo. Esta transição encantava-me. Neste tênue espanto eu buscava algo apenas ali revelado. Com a paciência pedregosa de um Deus eu notava-o no câmbio tonal de suas íris quando rompia-se o fio da vida, no ganho de peso dos seus corpos caindo em meus braços, no afrouxar de suas artérias. O fio do bronze foi senão o meu pincel. E com ele retratei não a beleza clássica de finas carícias, das flores e rumores que afagam-nos o espírito mas outra sorte de beleza que excede o nosso saber, cintilante sob a bruma de nossa ignorância. Nela revelam-se as esferas mais altas da vida e sua magnitude antes assusta para depois libertar-nos do espesso pó. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E após tudo isto lá estava eu, transcendido, impecável na via Ápia de volta à Roma, os braços fartos de espólios, suas jóias e tapetes, mobílias e estátuas, mecanismos e utensílios, sua flora e sua fauna, os leitos de seus pais e os templos de seus deuses. Toda uma miríade de coisas eleitas por mim para adornarem os eternos salões de minha áurea morada. E como agora sou eu o dono dos objetos onde em suspiros expressaram a sua arte, suponho ser o senhor de suas almas. Sobre pedestais cultivo zeloso a galeria de sua memória. E sob a minha tutela hão de operar milagres a ti, Petrônio, ainda ocultos.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Meu passado ergue a cabeça para contemplar-me. Nas lembranças despertas pelos objetos muitas vezes resgato êxtases enterrados fundo em meu íntimo, embaçados no pó do que já foi e não é mais. Como o elmo de concha extraído da gorda cabeça de Gael Piscenius, tirano da cidade submersa de Kêr-Is, cuja arquitetura toda ela de arcos e torres foi construída nos corais erguidos como dedos de centopéia até o fim da vista sobre um oceano de algas cintilantes. Ou na sala vazia onde guardo os espólios de um povo pilhado duas vezes. Havíamos flagelado a sua pólis e anos depois vimos os remanescentes numa planície ao leste esquivando-se de arestas invisíveis e encostados em paredes inexistentes, negociando bens imaginados e tocando instrumentos intangíveis. Toda a sua vida dava-se na ausência, bando de loucos. Quando interroguei-os atônitos apontavam à sua cidade, onde eu via senão uma planície de calcário e ramos secos. Mediante o sopro do vento demonstrei-os a inexistência de sua arquitetura e, contrariados, atiraram-me pedras abstratas que removiam do chão à grande custo. Matei a todos e de troça pilhei a cidade uma segunda vez, minhas carruagens rangendo sob o peso vazio de seus escombros. E no entanto depois notei um arranhão em minha têmpora. Ou num papiro em branco onde recordo os desatentos sábios da capital de Nullas, império de cegos cuja escrita era o próprio tear das finas fibras que compõe o papel num idioma agora morto onde manifestavam todo um mundo suspeito às singularidades, onde tudo transborda entre si pois em nada há limites, sendo a vida amálgama de fluxos e correntes. Lê-se não da esquerda à direita mas com ambas as mãos em simultâneo e desordem, pois onde carece o contorno não há nem fim nem começo, disse-me um dos sábios que poupei e acolhi para manter os pergaminhos. Toda a cidade um único bloco titânico de basalto esculpido em corredores, suas superfícies rugosas revolvendo-se sobre si e repletas de um idioma lido nas pontas dos dedos. Seus escombros encontram-se, creio, em algum de meus cômodos. &#38;nbsp; &#38;nbsp;&#38;nbsp; 
Há mais. O dedo indicador de Midas suspenso num arame de ouro onde mais de uma vez instiguei-me ao toque, tapetes persas com jardins de pavões cujo arranjo de penas ensina a inverter as marés dos rios Tigres e Eufrates, a tábua de esmeralda em seu brilho infinito que faz crer, como dizem, ser lasca do coração do planeta onde o engenho humano ousou marcar seu alfabeto, tecidos de seda tão fina que dizem costurada com fios de ar, a icônica escada de Ulbátar sem um degrau igual ao outro e cujo cume ninguém jamais alcançou, a pele do tigre que tanto vesti para morder a genitália dos cortesãos e cujas listras guardam o padrão de crescimento dos vegetais, um espelho perfeito que não distorce o mundo, cântaros com pó vermelho onde inspiram os etíopes para falar a língua do chacal, árvores comedoras de pássaros que ao invés de folhas crescem plumagens coloridas, um broche de pedra dos povos nômades das estepes que desconhecem os cereais e as cidades e que ilustra a revoluta caçada ao javali sagrado, cálices feitos das unhas de um Grifo onde brilha a bebida envenenada, uma das flechas que Hércules ungiu na saliva da Hydra, o cérebro pulsante e derrotado de Vercingetórix numa cúpula de cristal fosco, as primeiras velas de cânhamo costuradas pelos povos do Levante, a prole híbrida das éguas do rei Mahrajan com os cavalos do mar que visitam-nas sob a lua cheia nas finas areias da praia onde Simbad naufragou, uma das penas do cisne que estuprou Leda, os jardins suspensos da Babilônia em sua relva gorda e doces frutos e entre eles um boi faminto que dizem ser o grande Nabucodonosor II, um Súcubo sequestrado ao profanar uma jovem sonâmbula, os papiros ladeados em fio de cobre do Margites de Homero, da Comédia de Aristóteles e dos poemas de Safo, um estranho arame com duas lentes que acentuam a visão dos velhos, uma árvore nascida das cinzas de incontáveis druidas e removida à imenso custo das ruínas de um tempo circular na Bretanha, um canário azul em gaiola de prata cujo canto é alerta de um primogênito incorrendo em incesto, a argila úmida da Mesopotâmia que deu forma aos primeiros deuses e construiu os impérios macios onde o homem ajoelha sem pesar, o manto de açafrão da eterna aurora, os herdeiros das guerras Púnicas encenando a mítica batalha mas substituindo o brônzeo aço por penas de avestruz, falos milenares de pedra e fezes de camelo encontrados nas dunas da Etiópia, flautas de ossos onde nossos antepassados sopraram a sua solidão e escavadas no fundo de cavernas onde erram leões de longos dentes e ursos pelados, a fonte de águas termais cintilantes com a luz vermelha do oricalco por Netuno ofertada ao povo de Atenas e de súbito renegada em prol da gentil oliveira criada por Minerva dando-lhe a custódia da cidade, a Arca da Aliança com seus anjos andróginos já destituída das tábuas de pedra com os dez mandamentos mas ainda farta em relíquias como a mitra de Moisés cujos confusos ornatos dizem guardar os delírios do cristo na cruz e a ponta da lança que perfurou as suas costelas, os longos capacetes em granito da raça Annunaki que ressoam quando Saturno atinge o cume celeste, a máscara de um risonho fauno esculpida por um tal M. Buonarroti, uma fonte suspensa sobre quatro leões de ouro rosa, a imensa tíbia de um ciclope onde talhou-se a história da fuga de Ulisses e cujo tutano alimentou por gerações o povo da Sicilia, escombros da Torre de Babel e os tijolos de Tróia por Eneias carregados nas costas e de cujo pó serviu-se para viver mais de duzentos anos, um coro de castratos cantando a nota Fá sempre que o terceiro raio de sol alinha-se a uma medalha no centro do piso, o crânio enorme como um domo do titã Cronos onde Júpiter masturbava-se melancólico e a pele escrotal de Urano ampla como um balão, uma grande esfera diamantina em cujo interior palpita um coração de anatomia à mim desconhecida, um estojo onde se contém todas as coisas do cosmos, cítaras de cordas feitas com as tripas de centauros, um menir fálico que goteja quando os deuses descem à terra libidinosos, um cacho de uvas que nunca acaba, instrumentos musicais fabricados em obsidiana que de todas as gemas exógenas da antiga Anatólia é a mais rara, cascos de tartarugas gigantes onde Alexandre deitava seus amantes, a sela onde Fílis montou Aristóteles e também as embocaduras em cera de abelha, única exigência do filósofo, o chifre do unicórnio que Ctesias viu nos bosques da Pérsia e cujas lascas curam a lepra, um suporte para incenso feito da traquéia de um Fauno e usada pelo grande Xerxes para conversar com a vasta cadeia de sua genealogia, cavalos que à imenso custo meus filósofos ensinaram a rir, um cubo mágico com imagens coloridas em sucessão onde estranhas pessoas conduzem carruagens de metal desprovidas de cavalos, a lira de límpido som e armação de prata que Aquiles arrebatou da cidade de Éecion, a saliva tóxica da rã dourada usada pelo povo odinênido para induzir nos jovens a experiência de quase morte preparando-os assim à vida, brinquedos de corda feitos por Dédalus para os filhos de Minos que há mil anos não cessam de mover-se e também a fantasia de Pasífae, beatos do deserto vivendo todos em perfeita sincronia gestual para explorar os limites do indivíduo e punindo qualquer desalinho com a perda de um membro, diminuindo assim toda a gama de ações coletiva, os vasos mágicos criados pelo povo Yamaduq para transportar a água de seu lago sagrado à outro sítio de sol mais ameno, um meteoro em cujas rugas corre uma substância sebosa reativa apenas ao fogo e à certos tons de roxo, um leque de ossos de lebre cujo sopro cura o oblívio, estes e tantos outros, são tantos os que já não recordo. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Não foi a delicada mística dos colecionadores nem o êxtase do domínio as guias de minhas escolhas. Tampouco desejo passar os dias entrevendo nostálgico os tempos idos contidos no verso de certos objetos. Em minha morada tenciono antes corrigir os erros do mundo. Pois se o real esconde em seus lapsos todas as suas delícias e dotes abrindo assim espaço ao comum e inócuo, se os seus eventos são mero rearranjo apático de detalhes recriando novas cenas em essência similares às antigas, se a aurora de novos dias carrega este bolor estagnado do tempo passado onde tudo é tedioso pois repetitivo, tautológicas invenções revirando-se no balbucio dos deuses, se a memória do que foi cisma em macular o frescor do amanhã, se no pulso de tudo corre a promessa dos mesmos colapsos, se nos sorrisos dos jovens já se entrevê os vermes úmidos do solo, então é meu dever confrontar a miséria do acaso, seus vícios e falta de imaginação, arrancando das fendas do mundo todas as lascas dispersas do belo, recolhendo-as sob o peso da distância e o convívio com o oblívio e o desdém, eu, absoluto, que à tudo vi e à tudo toquei, que visitou todas as paisagens e todos os povos e comparou os seus deuses e doutrinas, e abdicou de suas fraquezas e alimentou as suas virtudes, eu, que poli os seus desvios e alisei as suas arestas, cuidadoso a coletar o que de melhor tinham a oferecer. Em meu palácio, neste estranho teatro de artefatos, manifesto sinergia capaz de ascender-nos à última das doutrinas, rearranjando os pólos de um planeta sufocado pelo ranço do banal. Aqui costuro constelação de novos sentidos e desafio os desígnios da criação, sua mecânica e lógica, métodos e critérios. Sou eu o fiel da balança e a pedra angular de um novo amanhã, eu a sua rija lapela. Sem mim desmanchará em folhas soltas, em revoadas de discursos salmodiando o brilho perdido. De costas ao mundo, busco rescrevê-lo. Em meu colo hei de compor uma história que os artifícios do devir foram incapazes de manifestar. Do despotismo do acaso escolhi libertar-me.


CARTA II 
Outono Precoce


A casa, Petrônio, assombra-me. Há tempos desconheço seus caminhos e em distantes salas encontro-me sem lembrar como lá cheguei. Os quartos encurtam, as paredes comprimem, o que antes era amplo salão agora não passa de corredor estreito resvalando as orelhas, antes espaços ovais cujo arco fugia à vista são agora claustros onde nada cabe salvo o sufoco. As superfícies têm a ânsia de engolir-me e vibram o ar nesta torpe magnética. E também o que antes era tímida dispensa abriu-se em salão em cuja amplitude há golfadas de vento e pisos que afastam paredes. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Escapa-me o acervo. Sinto-o líquido entre dedos quando no auge da noite estou em salas vazias antes entulhadas de coisas, nada vendo salvo os odiosos grotescos por Flâmulo desenhados nas paredes. E câmaras da mais resoluta escassez estão agora entulhadas de coisas, mobílias aglomeradas sobre si em caótica topografia, em montes vencendo as alturas. Por toda a parte as pontas de suas arestas como os ramos agudos em bosque de espinhos e eu, todo cetim, rasgando meu espírito numa pletora de assombros e estranhos sentimentos.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Como o vago langor quando fui incapaz de extrair sons de minhas liras de alabastro, suas cordas ressoavam tão doce mas agora só ofertam-me silêncio, feito linhas de pedra ou a boca fechada dos fantasmas. O miasma da melancolia que tragou-me quando buscava meu trono nas dobras de um plissado etíope, certo de que ali havia guardado os dias passados de um tempo mais claro. As torpes gotas de suor crescendo em minha face quando, na ânsia de secá-las, fui incapaz de levantar um lenço de mão em seda egípcia, tamanho o seu peso. O calmo terror colhido no brocado carmesim de um xale persa, os gemidos ancestrais de suas fibras gelando-me os dedos sob o amplo domo de meu salão invernal. O rígido espanto quando, dormindo num tapete babilônico, senti a vertigem das alturas celestes onde nuvens chuvosas escorriam o meu juízo para banhar os néscios e tolos do mundo que entre árvores entoam as melodias de um verão infinito. O delírio lancinante ao sopesar instrumentos cirúrgicos sumérios e perguntar-me se serviriam na extração de pesadelos, chegando mesmo a riscar múltiplas vezes a minha têmpora. O pânico obsceno, invencível, por ver ao meu redor no reflexo do espelho de bronze uma miríade de vultos, seus olhos luzindo metálicos e suas línguas em estalos na boca. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Sob o véu de minha loucura dialoguei com uma cômoda marroquina e ouvi sussurros nas fendas de painéis cretenses, amei a sétima pétala de um lírio cristalino e abdiquei da leitura pois temi a letra U. Nos veios do pilar em ardósia vi o relato de minha morte, nos poros de um copo em rocha vulcânica todas as minhas vidas passadas, no verniz de um banco pelasgo as coisas que jamais serão, nas fendas de um tabuleiro a vertigem das falésias, num brinco de carmesim a pélvis de Britânico e no punhal prata de uma bengala a glauca garganta de minha mãe.&#38;nbsp;Sob o peso de meu toque o mármore das estátuas cede macio como carne humana, ao redor de meu pescoço queima o ouro de um colar e firmes em meu punho relógios solares abdicam de suas sombras. As gavetas engolem-me os braços e os armários querem trancar-me, candelabros lambem meus cabelos e anéis estrangulam meus dedos. Coroas de imperadores derrotados me apertam o crânio e sandálias turcas levam-me a lugares por mim indesejados. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Nas tranças intérminas de uma pulseira nórdica conduzi o meu olhar, percorrendo as caudas dos monstros e as lanças curvas dos homens ali entalhados na prata ao redor da pulseira e de volta ao início, ao redor e de volta, ao redor e de volta, e pousei-a no piso e com a face colada nas placas de mármore gatinhava ao redor, os olhos fixos na progressão dos ornatos e de volta, ao redor e de volta arranhando a têmpora no rejunte e então levantei-me, a vista cravada enquanto caminhei e corri ao redor, o suor alojado nas rugas da face depois descendo o liso do corpo ao redor e de volta, ao redor e de volta e segurei-a de novo, seu metal quente na palma aberta e girava o pulso incontáveis vezes sob a única e masoquista convicção de ali na extensão circular encontrar mais uma vez o mesmo início, num galope onde sentia o sublime hálito do eterno pois nas mãos continha todo o horizonte anelado que enlaça o mundo, inalcançável mas tão próximo, remoto ao lado, como se devido apenas à grossura da epiderme ele estacionasse para sempre na distância, como também tudo o que jaz sob a pele, dentro de mim, meu espírito fugitivo nas terras últimas às bordas do oblívio banhando-se naquelas águas insossas primeiro em respingos depois em mergulhos e eu via-o ali, ao seu redor eu girava e queria impedi-lo pois não pretendo esquecer, não quero enfim acessar o meu cerne e encontrar ali nada além de um vazio glacial onde antes havia um fogo primevo que perdeu-se na correnteza do tempo, e seguia eu girando ao redor e de volta, ao redor e de volta, ao redor e de volta sem conseguir acercar-me e pois o que julgava ser espiral talvez fosse apenas círculo. Tudo isto eu vivia quando a pulseira caiu de meus dedos e no baque do piso espalhou em finos anéis a minha sanidade, como linhas dilatadas sobre água.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Preso na macabra sinergia de minhas posses, incapaz de domá-las, meu ânimo entorpece e critério embaralha. Nesta trama de segredos e clausuras sou, sob a cúpula de meu próprio lar, absoluto desamparo. Ao meu redor tudo rodopia, esquivando-se de mim. E já não reconheço mesmo o pouco que vejo. Onde estou? Que faço entre tantas coisas em ganas de destruir-me? Nelas sinto a corrente do ódio sugando-me a alma, as línguas crípticas de minhas coisas me arrepiando os capilares. Refém de minha morada, sob luz trêmula espanto-me com tudo o que antes escolhi no adorno dos áureos salões. Pois meu acervo tornou-se grande demais. Teria eu acumulado tanto? Rude ironia! Sob o amparo de meu palácio pensava eu conservar os escassos encantos de um mundo monótono. Ali gestava nova vida, meu domo a mais fértil das placentas. Mas agora percebo. Mesmo a rara beleza do mundo mostrou-se demasiado. São tantas as coisas. Sua abundância transborda-me. Incapaz de desvendá-las, sinto-as esquivando-se, calando a sua essência nas cavidades fundas onde não consigo acessar. De que importa então tê-las? Em meus bosques há esbeltos alces albinos mas jamais deitei os olhos em sua divina placidez. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Mas então mentiram. Pois sempre disseram-me Todas as coisas são tuas por direito. Tivesse o cosmo três sóis, seriam tuas as três auroras e as luzes dos três poentes deitariam no assoalho de tua morada, para aos seus pés o anoitecer pedir licença. Sob a benção dos deuses és tu a imagem do Absoluto para onde as lascas do mundo convergem, e sob a goma de teu juízo ao que cabe a vida será renascido e ao que cabe a morte, lançado aos escombros do oblívio. O Norte segue o seu olhar, o Sul as suas costas. Assim falavam. Assim fizeram. São meus os prados onde erram cavalos selvagens e as facas de sílex enterradas sob os passos dos paquidermes, o primeiro orvalho da manhã amaciando as hastes das frutas e a língua crespa dos dementes, as águas escuras como sonhos nos rios da Anatólia e as nuvens de argila nas pólis Babilônicas. São meus os dramas dos adolescentes, os sonhos dos velhos, a vingança dos injustiçados, os punhos quebrados dos caçadores, a incompreensão dos pais e o furor dos filhos, os olhares perdidos, são meus os amores solitários e os sussurros dos amantes, as lágrimas dos mudos e as cicatrizes dos errantes, as dúvidas dos devotos e a solidão do anacoreta e o sufoco dos celebrados e de tudo isto eu extraí o perfume, a delícia alojada entre dobras secas e ainda assim, meu suave amigo. Sou incapaz de entender. Desconheço o meu próprio acervo. O grande enigma segue sem resposta, sua sombra titânica sobre mim. Tudo o que pedi foi a verdade, envergonhada, aos meus pés. E agora são meus os joelhos caídos. 


CARTA III
Outono Tardio


Entre dedos escorria a valiosa visão de minha obra, crescendo à minha volta em deserto anódino e uniforme, suas dunas cobrindo as virtudes de todas as coisas e eu, pequeno ente em imenso mundo, em mim guardava nada salvo angústia, e a sede invencível. Por todo este tempo, pensei, bebia de um copo vazio. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E então te encontrei, doce Lucius. Sob as dormentes areias entrevi o brilho renovado de sua lembrança, jamais esquecida mas talvez abafada no passado. Pois no ápice de minha agonia encontrei, quase por mágica, o objeto que conserva vivo o nosso encontro, tanto tempo atrás, quando cativou-me o teu porte altivo e longos dedos servindo-me vinho, suas túmidas clavículas no peso da ânfora e mamilos perfurados. Curvado sanavas tu a minha sede sob os lumes rosados da pólis de Lápila, onde tudo é feito de cristal para em&#38;nbsp; meio à delicados alicerces contemplar-se a força branda e a ampla gama das cores solares e lunares. Nesta noite eras o meu copeiro e mais novo servo, tu e todos da bela cidade que por tanto tempo sufoquei em cerco e cujas foscas muralhas já conhecia melhor do que a fronte de minha terrível mãe, à espera sob as árvores todos os dias vendo os vultos baços de seus habitantes no rumor de seu vai e vem, seu medo granulado na opacidade dos muros que mantinham-nos ali, fora, exilados nas valas da selva comendo raízes e roedores entre grunhidos de soldados com os pés submersos na mucosa quente daquele mangue, todos nós esquecidos de nossos postos ou títulos e dormindo com a testa febril e as costas nuas sob os olhos das corujas, esvaídos de nobreza ou do suporte da cortesia. Ali eu temi por minha vida e tive de manter o trono à força das unhas, já mesmo sem discernir a relevância de meu título nos olhos desbotados de meus homens, sob máscaras de argila espreitando o meu sono.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Após todo este horror estava eu de novo entre cálices cuja finura faz quebrar no calor do chá, na pródiga ceia que lançaram em minha homenagem, seu novo soberano. Acreditas, Petrônio, que ao enfim rompermos o cerco e trovejarmos pelos escombros cristalinos da muralha, súbito a visão daquela cidade ressoando no toque das úmidas nuvens em suas torres de vidro fez-nos calar? Guardamos o aço e tiramos as sandálias. Tudo ali escorria sutil, mesmo o vento demorava-se entre as ruas onde os habitantes em graça faziam-nos lentas mesuras, como o mais nobre dos cervos sob a palma dos profetas. Morosos seguimos esta pilhagem que era mais dança que duelo. O decoro do lugar educava-nos. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E tudo isto eu vi realçado em ti, Lucius. A tua lisura ao encher-me o copo, o perfume de tua carne florida, a maior dentre as delícias do banquete. Eras meu por direito, deus do tato e do talento. Toquei-te a mão e ordenei que mais tarde visitasse meus aposentos. Colhi apenas teu descaso. Em vão esperei a tua vinda. E fiz algo inconcebível. Fui eu, imperador, à ti. E ali, ante o teu quarto nos corredores de vidro, por muito tempo vi a garoa de meus suspiros borrifando a tua porta. Mas com a carne dos dedos enfim empurrei-a. E ali, sob a soleira, em pavor velei o teu sono. Suas costas úmidas na língua prata da lua. Oh, Lucius. Curta era a noite mas larga a minha devoção, humilhado ante o suplício à ti, imenso ícone de fina pélvis usurpando-me a decência. Relapso entre as cobertas, teu corpo era colosso em minha mente e só ao seu redor faziam as coisas sentido. Gatinhei o teu piso, eu, o dono do mundo intruso em meus próprio domínios, raspando os joelhos na baça cerâmica de um serviçal. Mas era eu quem te servia, dentro de mim. Ajoelhado com a face rente à tua boca o seu bafo ardia-me a testa. Eu queria subjugá-lo, digeri-lo, ao menos masturbar-me ante o espetáculo de tuas espaldas, mas a altivez de sua presença impedia-me. Atônito, lá guardei-me por certo tempo. Queria conservá-lo para mim. Fui à cômoda e o que pensará de mim, sábio Petrônio, quando leres que lento abri a gaveta. Dali pincei algo indistinto que retive no fecho das mãos. Só abri-as quando fora do quarto, meu coração um sino quente na cúpula de meu ser, retorcendo sob os badalos deste amor. Um cálice de barro. Em toda a pólis de Lápila a única das coisas que ao segurar não revelou-me os dedos atrás.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Pois foi este o objeto que dias atrás encontrei em cristalino pedestal no centro de um cômodo cujas tábuas do assoalho rangiam sob os meus pés, mas não no ritmo de meus passos. Quando segurei-o, notei enfim. Há tempos procurava-te, calado, sem saber. E no entanto na carne das mãos eu sentia a sua energia evitando-me, recolhida às partes do copo intocadas pelo meu calor. Como fez o seu antigo dono. Estarias aqui? Meus dedos buscavam-te no barro, mas tu, elusivo, dançava em sinuosas elipses e nas revolutas deste encontro também a minha alma movia-se, desatando enclaves, solvendo coágulos, clareando córregos há muito obstruindo as terras de meu íntimo. Tu não eras, jamais serias meu. Passei então a buscar-te dentro de mim, no seio deste sentimento que prosperava à revelia de nossas vontades. Fora de mim sou incapaz de encontrá-lo, mas de olhos fechados vejo-te por toda a parte, na proeza de cada detalhe, na potência infinita das coisas latentes, jamais manifestas na dura luz do mundo onde o que de fato acontece sufoca todas as promessas do que poderia ser, onde dentre tantas hipóteses apenas uma sobrevive. Justo por esconder-se, te encontro em todo lugar. Justo por não ser meu, possuo todas as tuas versões. Faço-te receptáculo de todo o desejo e toda a esperança, de toda a libido lacrimosa de meu imaginar. Assim voltaste à mim, conservado na distância. No encanto das coisas que escolhem não ser, seu tesouro tal que uma vez nascidas quebram-se sob o peso do ar. Melhor mantê-las na placenta, no doce cordão da fantasia. Pois maior que a chegada é o advento, maior que o agir é a apatia, maior que o tudo, o nada. Nunca foste meu, assim é meu para sempre. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Quando penso em ti há sempre algo distinto nos detalhes da memória. Do cerne de cada minúcia germino em fantasia todo um cosmos de coisas inéditas, rutilantes, onde o tempo não troveja o fim de todo o prazer e cada ato carrega em si a calma do eterno, radiando fresco como a primeira fruta da seguinte estação, para sempre doce pois jamais colhida. Por vezes vejo nas tuas costas sobre a cama os matizes de outras luas, nas janelas as cortinas sob os sopros de outros ventos, as cerâmicas sob outras temperaturas, no vaso de vidro flores de outras cores ou espécies, a maciez de teus cabelos soltos, ou presos? Mesmo o timbre da tua voz, quando ouso inventá-la. Por vezes me repele e ou torno-me um vagabundo em fuga, toda a minha vida ofegante sob o susto de teu desdém ou a tua recusa ensina-me a digna humildade dos imperadores. Por outras me acolhe nas tuas cobertas e nas gomas de tua língua, na calidez cambiante de tua saliva e ou abandono a coroa para contigo viver em oblívio, o império florescendo ou arruinando em minha ausência, ou tu vestes uma segunda coroa ao meu lado, e juntos, quatro mãos no mesmo cetro, vergamos a vida ou somos engolidos por ela. Torno-me assim o feliz sentinela deste mar de mundos correndo céleres à minha frente, pasmado no fascínio de tua crista desconhecida, pois tudo me escapa e as pontas dos dedos formigam como quando eu era jovem e tudo era estranho e anônimo. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Na magnitude e no grânulo deste sentimento, prospero. Em mim não és mais Lucius, delicado cortesão, mas sublime portal de todos os rumores, todas as fábulas. Turbulenta força rasgando no fundo de mim os depósitos de matéria morta e abrindo verdes campos onde alma alguma ousa andar salvo a minha em sua doce solidão, para sempre transformada sob o prisma deste deleite, no brando júbilo de vencer novas distâncias onde todo o desejo ali deitado cresce em florestas cujos ramos não tardam em transbordar seu leite. Refém de minhas próprias fantasias, consumo os frutos deste romance, intacto e eterno pois para sempre solilóquio. Quase sou grato pelo teu desprezo. Desconheço-te, Lucius. Assim me libertastes. Ó deus dos segredos, derrama teus sussurros sobre mim.


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•&#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp; •


Petrônio. Não estranhe quando estes sussurros deitarem em teus ouvidos, neste novo disfarce que uso para alcançá-lo, água fresca das cinzas nascida e sulcando o ar no auge da noite. Ou as sendas da telepatia. Acalma-te, querido, e deixe-me verter límpido este sonho na bacia de tua alma. Pois embora escute o rumor destas palavras, não estou ao pé de ti, mas em margens distantes. E tão próximas. Lembra-se das caçadas nas escarpas do monte Velino, onde sob o ensino de Burrus curvávamos o arco? O doce prazer de alvejar a besta ao longe, serena entre os troncos dos abetos. Neste teatro antes vi-me como caçador, ao fim da vida como caça. Agora sou eu a seta. Se a lâmina do que digo for demasiado aguda para ti, desculpa-me. Mas que a ferida por mim causada, torço, abra-te os sentidos para renovada sutileza. Sei agora como caem os figos dos galhos. Pois da árvore da vida também eu caí. Pergunto-me qual dos Deuses trancará os dentes sobre mim. Talvez o além seja senão o processo digestivo dos deuses, onde todas as coisas misturam-se indistintas na bile divina, enfim unas no absoluto de seu glorioso estômago. Caso assim o seja, serei eu presenteado com o requinte da simetria, pois vim a falecer também pela barriga. Ontem do copo de barro brotou áurea bebida que mesmo transbordando jamais esgotava-se. Levei-a aos lábios. Cidra. Líquida, ela escorria em riscos na parede do intestino e seu perfume sedoso preenchia a minha boca como as maçãs nos verões de minha infância, quando o velho Vitus com seus olhos de estátua tateava-me o caminho ao pomar nas colinas de Anzio e eu deitava-me à sombra azul das macieiras e admirava o brilho nas asas das libélulas. Quão longos dias e calmas as noites nesta época quando a vida era o deslumbre de um enigma assaltando das coisas seus nomes, mantendo-as no apego de toda a busca e todo o desejo, quando eu ainda não vivia constrangido, encovado no cerne de mim, avaliando tudo à distância mas sim na pele, nas margens onde transbordam o eu e o outro. Sorvendo em simultâneo os fluxos de meu ser e as voltas do mundo, encontrava-me longe de mim, perto do outro. Não ansiava o domínio, antes diluía-me na vida ao redor, no verso das coisas e nos vincos da paisagem. E trançado ao todo sequer lembrava-me que existia, era eu as asas dos pássaros e as curvas do vento, as rugas do mar e as mãos titânicas dos adultos. Era eu o mundo como o via, íntimo, estranho. Mesmo em seus costumes mais comuns a natureza fermentava algo de mágico, uma benévola embriaguez destilando tudo entre si, no menor dos grãos eu entrevia volumosas amplitudes, montanhas nas costas de besouros e a fé dos mártires nas hastes da grama e eu, esguio entre tudo isto, desconhecia a morte. Sentia senão eternidade, um imenso agora luzindo o corpo de todas as coisas, repleto de promessas em sua mão aberta sobre o mundo. Mas logo a vida cerrou o seu punho e para fugir do desgaste dos dias era preciso dobrar à força os seus dedos e deitar, se tanto por instantes, em sua palma riscada pelas sobras daquela ternura que antes à tudo regava. Pois cada vez mais tudo vinha à imenso custo, com sacrifício extraído do leito árido da terra e da alma fechada dos homens. Como poderia ser eu algo salvo força e bruta e cólera, ira! Raiva ante a perda do brilho, sim, vejo tudo claro agora na doçura deste líquido em minha língua, onde testemunho uma última vez a inocência e o sossego desta terra perdida, nativa, onde aninhei o início de minha vida, onde nada havia de conquistar pois tudo era meu em seu distante encanto, a minha infância. Oh, sombras cambiantes, que fazem comigo? Ocultas na medula de minhas posses, vibram em suas cavidades como os resíduos estóicos de um vingativo passado. Sob o silêncio de meus salões à vocês submeti-me, entes rugosos. E aceitei o seu rancor. Ante a luz de parcos candelabros e a solidez de certas cadeiras, entre o retinir de raras gemas e o ressoar de elmos e lancetes de estanho, sobre as tranças de toalhas proféticas e a afiada astúcia de talheres, eu pedi-lhes, amigos, que orientem-me na linguagem das coisas sem voz, na visão dos que não têm olhos, no tato do puro pensar. Em meus gestos imitei o rigor de seus corpos, em meus órgãos o pulso de sua espera, em meu pensar as trilhas de sua temperança. Com vocês percorri câmaras fundas e túneis de minha casa, desci escadas e cruzei porões, fui aos alicerces onde entre vermes e insetos e mofo e lepra prospera o encanto das coisas arcanas e borbulha o ímpeto dos renascidos. Ali encontrei, por último, um alaúde flamejante em chama azul que não mordeu-me as mãos. Eu dedilhava-o e todo o meu corpo era clarão, archote de novo começo, e caminhei através dos salões de meu palácio e tudo à volta consumiu-se nas labaredas e polvilhou em cinzas e, rendido à desordem do incêndio, ascendeu enfim às camadas mais altas do éter, indistinto em espirais de fumaça sob as leves notas de minha ária. E eu, amo de tudo em tumulto nascido, tornei-me punhado de pó. Depois fumo, e sombra, e oblívio, e turva lembrança, agora água escorrendo no sulco escuro de teu sonho, onde entoa a melodia. Da servidão dos sentidos libertei-me. Estou ao além de mim. E tateio a mobília de tua memória. Serei eu, Petrônio, o vulto de teu encanto, velando-te o sono por entre as brumas deste mundo.&#38;nbsp;
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		<title>O Litoral</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/O-Litoral</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 02:48:54 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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	O Litoral















Zás! O automóvel disparava na rodovia, ainda oscilando pelo recente solavanco. Sua inquietude é ampliada a uma escala cósmica por um sol de cobre que impera o zénite como um holofote atento a cada gesto. No outro lado do mundo, uma lua invisível alonga a sua aura para a tudo sossegar num augusto descanso. No céu algumas gaivotas sustém-se imóveis, as asas largas contra o vento, já outras flecham o ar. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Temos mortalhas?” Ele apertou o volante até os músculos saltarem dentre os ossos das mãos, não levantando o braço sequer para ajustar o retrovisor enviesado. O calor geme nas janelas, abafando o ambiente do carro. Ela súbito despertou. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Claro, creio que sim. Quer dizer—, não sei. Deixe-me checar. Mas vai fumar? Tenho frio, na pele.” Coçou a testa e precipitou-se ao porta-luvas, deixando uma garrafa vazia cair ao chão, em meio ao seu desconcerto. Apertou a embalagem de mortalhas, vazia. “Não há problema”, disse mais alto do que supunha. “Respiremos, então.” E abriu a janela. O vento projeta-se em baforadas para dentro do carro, ribombando o ambiente numa grosseria aerodinâmica que assustou-o, embora não movesse um músculo de seu teso corpo. Ela fechou a janela, buscando na bolsa algo que tampouco encontrou, e levantou-se sobre o assento para levar a barra da camisa à sua testa molhada. Ele repeliu-a com um golpe de cotovelo. Ela desequilibrou-se de volta ao assento. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele desculpou-se, após certo tempo. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Quer estacionar?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Prefiro não. Impossível.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele parou de viés, na borda da estrada. O carro de trás buzina, ultrapassando-os num rasgo sonoro. Ela saiu pela porta e contemplou os campos de aveia, suas hastes duras como bronze e indiferentes às pelejas humanas. Seu peito latejava, em meio à letargia do mundo. Ele assomou ao seu lado e esticou-se de quatro no chão, como um bicho que examine a própria integridade. Ela levou as mãos à sua nuca, ao que Ele levantou, alongando-se para trás com o peito estufado. Inspirando o ar espesso em aparente remorso. &#38;nbsp; &#38;nbsp; 

“Por um momento ali, senti que morria.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Também eu. Bem. Mais vivos, agora”, Ela sorriu de lábios fechados.



&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele voltou-se ao carro e passou a mão nos rompantes de lama que cobrem este lado da lataria. “Ouviu o agudo que ressoou quando ele resvalou em nós?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “As aulas de meu pai serviram-te para algo, ao menos”. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele suspirou, de sobrancelhas elevadas. “Foi por pouco. Por um triz.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ela de novo estendeu os olhos ao redor, modulando-se ao lento compasso da paisagem. “Sobre os cavalos de Tróia, Virgílio escreve serem tão leves que atravessam um campo de aveia sem envergar um caule sequer.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Suponho ser eu então o teu equino favorito. Ao menos não rompi nenhum, ao desviar.”&#38;nbsp; &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “É estranho. Sinto-me suave, de repente.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Descansamos um pouco?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Sim. Há tempo, ainda.” &#38;nbsp;


Estacionaram numa loja de conveniências, à beira da estrada. A porta fechada não cede, mesmo quando Ele forçou todo o seu peso sobre a maçaneta. Por detrás da poeira nas vitrines, as cores gritantes das embalagens de chocolates e das latas de refrigerantes demarcam as intactas estantes, e um imenso mascote em papel-cartão constrange a delicada solenidade dos pães amontoados na bancada, com um pequeno cálice tingido de vinho, ao seu lado. Escutaram rumores, no lado de trás do terreno. Ele volteou a construção. Encontrou um homem gordo de mamas avantajadas, nu, mas de boné na cabeça, com uma mangueira lavando um homem deitado de bruços no chão. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Não há ninguém, saíram faz tempo”, diz ao ser perguntado, apresentando-se como G. Ele contemplou os jatos d’agua cristalina sobre o corpo pálido, e perguntou-lhe se não poderia beber um tanto. Tinha imensa sede, na realidade. G. diz-lhe não recomendar, a água é suja. Ela fitava o corpo caído. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “É um resíduo”, G. diz. “Não era suposto estar aqui”. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Nota-se”, Ele disse. “Isto, se vê. Um morto nos fundos de um posto”. A frase pareceu-lhe estúpida, quando dita, não horrorizando-lhe como previra. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Rego-o, para renascer. Como se faz com as plantas.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mas estamos no asfalto. Precisa enterrá-lo.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “É verdade”, G. diz. “Não é para regá-lo. Quero empurra-lo ao longe. A senhora perdoe, não tenho malícia para mentiras.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Parece bem confortável, deitado aí”, Ela disse. Sentia sono, pois na vida não cabia o vago horror que formigava-lhe os olhos.&#38;nbsp; &#38;nbsp; &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Deveria levá-lo para lá, mas não quero tocá-lo. Nunca tinha visto um cada-a-ver antes”, G. diz.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Cadáver”, Ela disse.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; G. faz que sim, com a cabeça roliça. “Nunca havia visto um. Não era suposto estar aqui.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Onde deveria estar, então?”, Ele disse. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mais para o lado de lá”. G. aponta o nariz a um campo indistinto, onde há um bosque de ciprestes. “Depois ainda das árvores”. E coçando a testa sob o boné, “o problema é que os frentistas do posto de lá avisaram que arrastariam uns desses para cá. Não acreditei.” E olha de novo o cadáver. “Os patifes.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “E por que se dariam ao trabalho?”, Ela disse.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Pois são muitos, senhora. Eles não aguentam mais.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mas então aqui é perigoso! Nós mesmo, minutos atrás—”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Não, minha senhora. Aqui é seguro.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “E onde estão as suas roupas?”, Ele disse.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Nunca usei-as.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Apenas um boné”, Ela disse.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Há também o avental da loja, mas não temos clientes. E sinto frio na careca. Não é um crime, pois não?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “De bom tom, não é”, Ela disse. As carnes do cadáver esparramavam sobre o asfalto como massa fermentada que envolvesse-lhe o cansaço, amortecendo o seu corpo num confortável casulo onde poderia dormir até o fim da vida. Tornar-se as coisas contempladas é como despertar ao sono, aceitando em si a dormência daquilo que não importa-se com a nossa angústia.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Pensando bem”, G. diz após recompor-se de uma pausa em que fitou-os de cabeça inclinada, “valha-me deus, não é que—”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Você enoja-me”, Ele disse, mais por hábito que convicção. Entrevia uma placidez monstruosa em todas as coisas agora isentas do tumulto dos dias e da melancolia das noites — tudo havia revelado-se, talvez, mas ainda conservando a antiga silhueta. Como alguém que enfim exibisse a face por detrás da máscara, tendo ambas a mesma feição. Tudo era, sentia-o, em absoluto si mesmo. “Esta estrada é circular”, Ele disse, como se estupefacto por uma longa reflexão. “Não há destino, nem sentido final. Vai a lugar nenhum.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Nosso compromisso!”, Ela disse. “Atrasamo-nos.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Tentei empurra-lo com uma vara, mas tive nojo. Sentia-o chacoalhando em meu punho”, diz G., indiferente à pressa do casal. “Pensei em afasta-lo com a água, mas não resultou.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “É absurdo”, Ela disse, “empurrar um cadáver com água. Por que não usa uma corda, ao menos, para puxa-lo?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “E quem vai amarrar? Os senhores? Assim posso limpa-lo, ao menos,” e volta a rega-lo. “Talvez depois não seja tão estranho.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mas pensei que esta água era suja”, Ele disse.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “É verdade, senhor. Aí me pegou”, e fecha a água. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; O cadáver cospe a água e, moroso, resmunga algo. G. chuta-o, num acesso de raiva. A gordura não retém a sua agilidade. Vê-lo mover-se é quase milagroso, como se pudesse impulsionar-se aos céus com um ligeiro golpe dos dedões. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Não faça isso! O homem vive.” Ele precipitou-se ao corpo, mas algo reteve o seu avanço.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “O que houve, querido?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Nada”, disse duvidoso enquanto fitava o cadáver. “Não é nada.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Acalme-se, senhor. Ele não vive. É que não sabe onde está.” 


Indecisa dentre a luz vitrificada de uma lua em ascensão e a desbotada espessura de um sol que esmorece, a cidade de Setúbal desvela-se outra. Também os holofotes dos barcos deslizando em sua baía baralham-se com os néons dos edifícios comerciais que despertam para a esperança da noite como relâmpagos indolentes parasitando as fachadas. Também a chuva recente, agora derramada nas calçadas de pedra polida refletindo os faróis dos automóveis, evoca o verdadeiro talento de uma cidade que anseia ser, mais que uma arquitetura sólida em si, um mero suporte para a alquimia de luzes. Seu carro vagueava em corredores ladeados por prismas cromáticos de tons mudos, formados mais pela melancolia das cores do que pelas cores em si. Pessoas montam mesas de ferro nas calçadas, suas costas abençoadas pelas capas de cor emanando dos edifícios, ou caminham de braços dados pelas ruas sem sombra de ansiedade, ou ainda olham o mar, não demonstrando interesses específicos. Há aqui uma aura de suspensão, ambos sentiram-na embora não tenham comentado, talvez pois receassem romper o silêncio litúrgico de um momento que esquecera-se de participar do tempo, talvez por terem sido agraciados por uma apatia contrária a qualquer ação, que esvazia-nos de nossa identidade para entulhar-nos com o espírito de todas as coisas. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Penso estarmos perdidos”, Ele disse enfim.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “E por que o diz? Já viemos tantas vezes.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Pois dirijo sem destino, e até agora não corrigiu-me. Há tempos estamos na mesma rotatória.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ela tomou um instante, para despertar de sua dormência. Atentava-se a uma ave caminhando na relva, como as aves de sua infância, quando ainda não aprendera que voavam, buscando-as no chão, e maravilhando-se quando desapareciam. Mas esta ali permaneceu, sentando-se enfim, talvez por não ter aonde ir. “Claro, entendo. Entre na segun—, ou seria a terceira?” E viu de novo o mar, distante num sulco entre os edifícios, e disse “agora, meu amor” com imensa calma. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “O que viemos aqui fazer? Não sei se recordo-me.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Jantar com meus pais, creio.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mas não viajam?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Sim? Bem. Foi para passarmos a noite no hotel.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele arrastou a ponta da língua pela parede seca da mucosa na esperança de ali escavar a lembrança, mas movia apenas massas de areia estéreis incapazes de revelar a nítida silhueta do passado. Pensava nos tons de terracota dos carpetes, e nos padrões náuticos das paredes, e na gentileza do concierge, e no perfume de lavanda dos elevadores, mas nada retinha, suas formas desfazendo-se em amontoados indistintos. “E já estivemos num hotel de Setúbal?”, Ele perguntou enfim.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ela contemplava o oceano, e as montanhas mais atrás, ali imaginando um pequeno monastério onde vivia um monge solitário e zeloso que passara a semana a preparar-lhes duas camas, nivelando os pés e lavando os lençóis, agora afofando os travesseiros em contida excitação, suas mãos perdidas nas largas mangas do hábito e os pés juntos, em sandálias. “Vire à esquerda. E siga pelo portal até a fileira de carros.” Não estivesse ela envolta numa aveludada letargia, teria decerto estranhado a obediência de seu marido, tão distinta de sua teimosia usual. Pouco importa, também, a qual lado viramos. O tumulto das circunstâncias é apenas o disfarce de um universo anestesiado aos nossos objetivos. Decisões não são importantes — por que tomá-las? &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Estacionaram atrás de um automóvel branco com varas de pescar que pendem, aracnídeas, das janelas. Após breve intervalo desponta adiante, como um imenso inseto, uma embarcação que resvala a sua carapaça pelo brilho pálido da baía, repleta de antenas giratórias e hastes delgadas cujos movimentos incoerentes parecem sintonizados a longínquos acontecimentos em nada semelhantes ao marasmo da cidade e das embreagens dos carros em fila. No porto encosta delicada, reclinando a rampa por onde os automóveis ocupam, aos poucos, o seu vazio interior. Homens delgados de pulsos velozes conduzem a todos em sonolenta segurança, esgueirando-se por entre as latarias para melhor determinar o lugar de cada um. Enfim estacionados, Ele súbito fez menção de sair, enquanto Ela preferiu descansar, quem sabe dormir. Foi-lhe difícil escapar pelas frestas das portas. De lado percorreu tais corredores estreitos, buscando alguém em posse dum copo d’água. Os operários disparam dentre os lampejos refletidos nas superfícies dos carros. Perseguindo-os, complicou-se. Preso no nicho entre dois automóveis, as costas coladas no vidro de um furgão e os joelhos abertos sobre os faróis de um conversível, uma das mãos na capota para não cair à frente, desperta enfim a misericórdia de um deles.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Ajuda, senhor?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Água, meu querido.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Como o operário não demonstra compreender o mais banal dos pedidos, Ele resignou-se ao ridículo de estender o polegar da mão livre à boca aberta. “Água. Tens aí?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “É pena que não.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mas como assim?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Ao que parece, não fomos reabastecidos, hoje. Não há estoque no barco. Apenas ao capitão, naturalmente.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Naturalmente. E onde posso encontrá-lo?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; O operário, agora solene, fita-o nos olhos para agravar o instante, preparando-o para a memorável doutrina. “Ao capitão, ninguém perturba”, diz categórico. E relaxando a postura, “Tente a casa de banho, no terraço de cima. Queira controlar-se, é breve, a viagem”. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele abaixou a cabeça e viu uma gota de suor despencar da testa para ribombar na capô do conversível, dali deslizando ao seu joelho, que pressionado entre os pára-choques da frente e de trás, começava a formigar. “Meu senhor”, o operário diz. “Poderia ajudá-lo?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele disse que sim, poderia. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Pois não.” Sua mão estende-se num vagar quase sagrado, ultrapassando o seu peito e contornando a sua cintura, descansando enfim no fundo do bolso direito, cuja distância obriga-os a colar bochechas. Enfim retira dois bilhetes, picando-os como se temesse ferir ao papel, e recolocando-os no mesmo lugar, talvez para reaver à sua bochecha o suor que ao outro transferira. De novo ereto, recompõe-se penteando os cabelos com as mãos. “Cumprimentos, senhor”, diz antes de disparar a outro canto, deixando o pobre homem na mesma posição, da qual ele enfim escapou quando o proprietário do conversível veio buscar a garrafa que deixara no aparador, bebendo o seu último gole e, num acesso de caridade, soltando o freio de mão para permiti-lo um tão necessário acréscimo de espaço. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; No terraço, a cabine de banho encontra-se trancada. Esperou um tanto, depois martelou-a de mão fechada, sua porta oxidada que parece muito mais antiga do que todo o restante do navio. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Pois não?” É estranho o tom de voz, abafado pelo metal da porta. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Ainda demoras? Pois venho em busca d’água”. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Meu filho, a não ser que pretenda esbaldar-se na pia ao lado de um velho que caga, será preciso esperar”. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Não há problema, posso fazê-lo. Na realidade, será uma honra.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Após certa hesitação, o velho diz “Meu filho, não dá. Convenhamos. Peço desculpas. Sua mulher se constrangerá.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele apoiou a testa na porta, as palmas abertas ao redor. “Tenho de encontrar o capitão, é o único jeito. Sabe onde está?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “E como não haveria de saber? Sou eu o capitão.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “E tens água, na cabine de comando?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “É evidente. Dou-lhe um tanto. Apenas espere-me sair. Mas já aviso — demora, ainda.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mas quem conduz o navio, agora?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “De fato, é uma boa questão”, e após hesitar possíveis respostas, diz “as correntes, creio.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Voltando-se à paisagem, a lua alinha-se sobre a cabeça de sua mulher para despejar-lhe lampejos pelos cabelos que, imóveis nas costas, eram como uma coluna de cristal que sustentasse o domo celeste ou um véu de vidro para preservar o espírito da inocência de um mundo que agora tampouco parecia interessado em assalta-la. Ao seu lado e mais abaixo, um sol cinzento já convive com a bruma marinha que liberta-se das águas para tingi-lo em sua nebulosidade. Sob esta alquimia de matizes, o navio refulge esquálido, como se todo esculpido de um diamante. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Meu filho, não emprestaria-me uns tostões, por acaso? Esta sanita é sovina que só. Pede moedas para a descarga”, diz o capitão, ainda dentro da cabine. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Tenho sim, algumas”, e checou o bolso esquerdo. “Quatro de vinte e cinco.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Perfeito. Deslize-as por debaixo da porta, por favor.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ele o fez.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Estão salvos. Cá entre nós.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Como assim?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Imaginas entrar aqui depois de mim, sem descargas? Também sua mulher, talvez toda a embarcação, sofria. Mas alerto-lhe, ainda falta.” &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Indo à Ela, abraçou-a por trás. Uma lufada de vento parece usurpar as sombras de todas as coisas. “Não dormes?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Veja”, Ela disse. Contemplaram então um oceano todo branco, pois multidões de medusas arrastam-se morosas sob o espelho d’agua, as bordas de suas alvas membranas dançando ao sabor das marés como fantasmas alcoolizados na leveza do além, esquecidos de assombrar-nos ante o irresistível empuxo de uma energia maior, ou os vestidos de donzelas invisíveis, suas barras flutuando sobre o chão, ou os irisados orvalhos nos ramos de abetos que perfumam o princípio do inverno, ou as pérolas no colar das mães quando, antes de dormirmos, abaixam-se para beijar-nos a testa, ou a seiva que lacrimeja quando sulcamos o tronco da seringueira, ou as pelotas que correm a relva nos domingos de futebol, ou sinos calados badalando o juízo final, numa lentidão que ignora a existência do tempo, ou os dentes de siso perdidos sob o travesseiro e que tempos depois descobrimos, no estado de graça de um mecenas oriental, num estojo de marfim sobre a velha cómoda, ou os cogumelos despontando entre as raízes das árvores por nós coletados com o auxílio daquele amável, imundo cão cuja verdadeira cor ninguém conhece, mas nós o sabemos, ele é branco como os coalhos de leite no chá de hibisco de nossa avó, quando a chuva fina impele-a a reconfortar-nos, ou o bule branco de onde nossa tutora bebia ao ensinar-nos a tabuada e o passé simple, sendo-nos agora impossível contar uma história em francês sem sentir o aroma de café.&#38;nbsp; &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “São quase abstratas”, Ele disse. “Pode-se ver o que for, nelas.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Imaginamos muita coisa, mas o real é sempre maior. Tudo é verdade. Sonhar é desvendar um fato até então desconhecido.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Pensa serem todas iguais? Ou distinguem-se?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Teriam as medusas pais e mães, Ela pensou. Amantes, memórias? E tentava lembrar-se de sua vida. De seu primeiro beijo. Daquela tarde em que seu pai ensinou-lhe a dirigir. De quando por alguns minutos perdeu-se, ainda criança, de sua mãe numa feira de natal abarrotada de estranhos. Estas imagens que emergiam do passado, seriam apenas as suas? Ou lembrava-se das vidas de outros? Fôssemos nós as medusas, seria a mente humana o oceano? Um fenómeno cósmico que atravessa-nos todos, suas correntes aparando as arestas de cada identidade para despertar a nossa essência comum em tudo espalhada — cada indivíduo contém o todo, sendo a mesma parte da imensa criatura. Teriam as minhas lembranças nascido antes mesmo de mim? Os instantes de sua vida não mais pareciam-lhe uma arquitetura coesa à espera de sua chamada, mas um cardume promíscuo que escapava-lhe os limites para entrelaçar-se no passado de outras pessoas. Quando pensava na própria vida, encenava também as vidas dos outros, e já conseguia pressentir o dia que enfim questionaria se ainda conservava algum acontecimento próprio, ou se tudo o que continha não teria originado-se em outro. Quando um cardume de medusas, aos poucos alterado por outros cardumes que esbarram-lhe, torna-se enfim um novo cardume? “São o primeiro animal do mundo, as medusas”, Ela disse. “Em quase tudo iguais à água, e ainda assim, conscientes. Um tímido tropeço da biologia: ei-nos na vida.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Para onde vão?” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Dependem das correntes.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Não pensam, portanto.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Quase não vivem. Habitam a borda do infinito.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Como assim?”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Não sei, talvez. O oceano é indivisível. Todo igual. Uma única gota o contém. As medusas são quase gotas.” &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Respingos da primeira água”, Ele disse, a língua seca. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Minha mãe chamava-as de água-viva”. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Como se a água acordasse.” 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Mas sonolenta, sempre.”

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Embora elétrica.”&#38;nbsp; &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; “Não sentem ansiedade pois descarregam-na nos que visam perturbar o seu marasmo.” Nos cardumes de medusas em sua emaranhada procissão Ela parecia querer desvendar, enquanto falava, alguma epifania. “São como deus”, então disse, “quando escuta as nossas preces”. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A estridência da buzina desperta todos aos seus automóveis. Centenas de passos ressoam nas escadas de ferro e nas grelhas do pátio enquanto Ele conservou-se, resoluto, à porta da cabine de banho que segue fechada mesmo quando Ela desistiu de convencê-lo e sozinha desceu, ou quando um dos operários expulsa-o do terraço para conduzi-lo, sob protestos e ameaças, de volta ao volante, onde Ela recebeu-o não sem um ou dois dedos de censura. &#38;nbsp;


O carro varava as finas estradas revestidas de areia em tal velocidade que mais parecia sobrevoar o asfalto. Ele movia o volante apenas com o dedo indicador, também pela ajuda do vento que vigora na mesma direção, cambiando talvez o seu ângulo de sopro a depender das curvas do caminho. Pode-se ouvir o tilintar dos grãos estalando no chassi, como uma longínqua praia do submundo sendo fabricada por titãs que nos punhos estilhaçassem imensas jazidas de vidro, apenas para os dois. Passaram por casas atulhadas de uma areia fina que enfia-se nos feixes das tábuas e nos fundos dos copos, nos vincos dos pratos e nas fibras dos tecidos e resistente a qualquer ímpeto de limpeza, levando os residentes a, mais que aceitarem os sabores dos ventos, rejubilarem-se com a ideia de destino. Abrem-lhes a cancela que fecha a estrada como se atravessá-la fosse o seu direito fatal. Estacionaram dentre um bosque de pinheiros, na borda da praia. Sobre o chão de agulhas macias, seus passos não emitiram ruídos, e as pinhas caídas conservam-se onde sempre estiveram. O frescor do lusco-fusco alargava cada coisa, na ausência de calor desatentando-lhes de seus próprios corpos para destacar os seus espíritos neste leviano espaço que amolece a energia do labor e prolonga a ténue epifania. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; 
Adiante enfim desponta a pálida planície, uma praia de águas calmas e areia tão fina que as marcas dos passos não persistem sobre a lisura geral. Não venta, nem grão algum desloca-se por conta própria. Ao centro da praia uma baleia albina murmura qualquer coisa, como o áugure de um oceano que apreenda a sua boca para veicular o abismal evangelho. Ninguém desencalha-a, ela própria não denotando qualquer angústia. As marés prateadas são espelhos amorfos que não derramam-se na costa, antes reclamam a solidez da praia ao oceano que antecede um horizonte arqueado para cima. A maresia resvala-lhes as têmporas, desatando as tensões do dia numa lisura mental semelhante à inexistência temporária que preenche-nos em momentos de felicidade. Vivemos a memória deste momento, pensaram. Fatiado pelo degrau do horizonte, um sol branco estende o seu trémulo tapete sobre a monotonia das águas primevas. É tempo de regressar. Para onde, no entanto? Um último feixe de luz cinzela a curva do oceano numa planície marmórea idêntica ao céu de uma noite que inicia pálida e sem nuvens como o interior de um imenso ovo. A lua transparente é pouco mais que um orifício que, desprovido de substância própria, parece querer extrair a densidade alheia. Como se alçada por uma força cósmica, a baleia se levanta, ereta sobre a coluna da cauda. O seu corpo vitrificado ascende, lentamente. Por toda a parte os resquícios do dia são removidos, em cada coisa apenas persistindo um leviano agora. 



 

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		<title>De Lábios Fechados</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/De-Labios-Fechados</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:09 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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De Lábios Fechados



Há uma noite que se descobre quando olhamos um homem nos olhos — mergulha-se então o olhar numa noite que se torna terrível: a noite do mundo que avança ao encontro de cada um de nós. 

Hegel


I


Quão frágeis são os galhos das árvores sob os golpes do inverno! Como pode a vida manter-se assim, agachada como um servo e raspando no fio dos dentes os tubérculos frios, engolindo lascas, sua memória agarrando-se vacilante ao gosto de um sol que, tão generoso, regou o mundo no verão? Como resistir na terra onde as águas queimam e os ventos cortam, onde o marasmo da neve sufoca as delícias do solo, onde o sol não sobe o céu e sob a foice da lua a miséria ceifa as melhores intenções do espírito humano? 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Sob o ranger dos plátanos seguiam famintos uma lenhadora e sua Criança. Há dias buscavam comida. A Mãe vergava sob as largas vestes, suas mãos ocultas nas mangas do casaco e firmadas sobre o punhal de um machado cuja lâmina fria queimava-lhe as costas. Aguçava os sentidos em busca de pistas, resíduos de vida ocultos na miséria da paisagem. A Criança perdia-se em devaneios. Sua pequenez permitia-lhe manter apenas os olhos acima da camada de neve, que rompia com o peito, seu coração batendo contra o gelo. Uma luz frouxa diluía-se sobre o dorso do mundo, e as bordas foscas das árvores luziam pálidas. A Mãe em tudo repara quando, numa fresta entre os troncos, vê uma estranha anatomia que não parece pertencer. Há algo ali. Ela segue adiante, sozinha e de metal em riste. Seus passos metódicos, apáticos, volteiam a árvore. O que encontra dobra-lhe os joelhos.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Um porco. As patas seguras, o peito estufado, as costas esbeltas. Suas formosas banhas dobrando-lhe a pele como as vestes das madonas no mármore, escondendo nos vincos da carne a fartura do mundo, conservando-a da aridez glacial. Como podia tal criatura estar ali, desta forma rosada, saudável, opulenta? Ajoelhada, a Mãe parecia a devota de um invencível ícone, impecável no auge do inverno, jamais perturbado pelos golpes da natureza, qual rocha eterna imune ao acaso ou destino, auto-realizada em sua resistência. Ao lado surgiu a Criança, mas não espantou-se como a Mãe. E devagar deitou o dedo no peito do animal, mas súbito o recolheu. Habituados ao frio, seus músculos estranharam o calor daquela pele. Ela estudou o seu semblante. Então sentou-se na pedra, deitou a cabeça do bicho em seu colo e manso o manteve ali, mesmo quando o inverno agravou-se, mesmo quando a sua Mãe buscou afastá-lo do animal, mesmo quando ela lembrou-a da Fome e berrou e implorou e enfim levantou o metal para golpear o porco, que em pânico tentou escapar. A Criança apertou o abraço e impassível contemplou a lâmina reluzente. E a Mãe pousou o machado e correu os dedos pelos cabelos da Criança, conformada à sua vontade.


II


Em casa a Criança serviu-lhe alguns dos grãos que ainda mantinham no fundo do vaso. Depois banharam-se juntos e pode sentir melhor a pele flácida, as rugas da carne macia, os pelos finos da serena criatura que parecia entender tão bem o mundo humano, suas coisas e processos. Ao fim envolveu-a num lençol e rindo viu o porco vestido cruzar a sala e sentar-se na poltrona ao lado da lareira, onde também o seu Pai costumava sentar. À tudo isto assistia a Mãe, que apoiada no tampo da mesa sentia-se cortada em dúvidas. Com a ponta dos dedos sobre o fio da lâmina meditava se a Criança perdoaria-a caso cortasse o pescoço do bicho. Sentia a Fome crescer a cada afago entre os dois. Agora eram três as bocas, os grãos rareavam e o inverno gemia nas janelas. Ainda assim, ainda assim. Nada mal o alívio de ver a Criança abrir-se. De vê-la alegre enfim. Pois abandonados num bosque milenar viviam, onde nada persistia que não fosse hostil. Talvez houvesse ali a chave para despertar na Criança um sabor mais doce. 


III


E no calor do animal a Criança conservou-se. Não tardou para tecerem uma intimidade só cultivada no silêncio. Como se o hálito partilhado entre os dois fosse uma espécie de âmbar onde o tempo suspende e pode-se acessar as camadas mais ocultas. No vasto mel de seu sigilo sorviam um tempo mais lento e macio, na espessura cristalizado. Pois a Criança sempre sentiu que faltava algo em suas falas. Por toda a sua vida algo mantinha-se calado ao fundo. Era incapaz de expressar aquilo que revolvia em seu âmago. Descrever as coisas era substituir o original por um retrato empobrecido. As palavras eram rasas, como gotas de chuva no oceano de seu espírito. Sua Mãe interpretava-a soturna e esquiva, mas como poderia a Criança explica-la a sua apatia frente à aspereza do mundo, quando esta violência era composta por estrutura tão sutil? Ela jamais decidira fazer parte, enquanto a Mãe caminhava resoluta entre a carne das coisas. Ocupava-se demais com os males do mundo e os males do mudo haviam embaçado o seu espírito, desbotado a sua ternura. Alienada, a Criança abdicou da fala. Mas agora era justo o silêncio a vereda perfeita. E o animal entendia — nele, espelhava-se translúcida. Tudo o que na passividade do porco a Criança lançava rebatia de volta à si, imaculada pela estupidez do bicho. Tão vasta era a delicada tessitura de sua amizade. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A Criança punha o animal ao pé da cama e vestia-o com as roupas do Pai. Já não lembrava-se bem do homem que os desertou mas ainda tinha as suas roupas, seu aroma abafado. Punha na besta coletes e luvas, cintos e calças e botas e chapéus. Ao amargor que o Pai despertava-lhe o porco adicionava notas de uma ternura doce demais para suportar ser dita, portanto calava-se alegre com o escândalo da imagem pois o animal parecia acolher as vestes com inesperada fluidez. Por instantes e sob certos ângulos a Criança sentia como se o porco de fato já houvesse vestido estas roupas, e gostava de nutrir a ideia, embora soubesse do seu disparate — ou mesmo por causa dele. De fato, o espetáculo do caimento das vestes sobre a sua gordura dava ao animal um delicioso sossego, um conforto que folgava o arco de sua face e não escapava à Criança. Talvez, pensava, algo emanasse dali, algo que transbordava o corpo da besta. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Enquanto isto, o inverno ia alto e sobre a borda do vaso quase vazio a Mãe viu a Fome enfim emergir, que veio lenta pelo assoalho e beijou a sua barriga e pousou a cabeça em suas costelas. &#38;nbsp;


IV


Certo dia a Criança notou algo distinto na face do animal. Examinava-o sem saber ao certo o que buscava. Mas algo havia-se alterado. Algum traço oculto eriçava ao além de sua curva habitual e, em meio à trama de linhas que tece o formato das coisas, a Criança tentava pinçar o fio atonal. O que seria? Até enfim deitar os dedos sobre os lábios do porco. Abriu-os. O que viu dilatou as suas pupilas e travou as suas sinapses e por instantes as bordas do ambiente desfocaram para ajustar o mundo ao que via, acolhendo-o ao real, confirmando como genuíno o que antes julgava impossível. Os dentes do porco haviam mudado. Não mais pontudos e finos, mas grossos e curvos como os dentes humanos. A Criança retraiu as mãos e desviou os olhos à aresta do quarto. Sentiu-se aérea, embriagada. Seus tímpanos latejavam. Respirou fundo e correu a mão pelos cabelos e voltou a vista ao animal, que fitava-o. Levantou-se e desceu as escadas. Queria exilar-se, ajoelhar no altar da solidão para, longe de tudo, acostumar-se ao absurdo. Mas o porco seguia-a. O raspar de seus cascos no piso de madeira foi-lhe repugnante. Fechou o animal em casa e acolheu o vento polar, e sob o arco cremoso do céu banhou-se numa luz baça similar à brancura da neve, que dissipava o horizonte e fazia do mundo uma esfera desprovida de eixo. Deixou a sua mente afrouxar com as longas elipses deste anárquico mundo, que girava misturando todas as coisas. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Passou algum tempo até a Criança voltar à boca do animal e confirmar o que vira. Encontrou também uma língua humana. 


V


Disto a Criança induziu que talvez também as suas cordas vocais haviam-se alterado, que talvez o animal fosse logo capaz de modular sons humanos, e quem sabe, falar. Mas dias passaram-se e o porco nada disse. Podia-se quase esquecer a sua nova anatomia bucal, salvo quando a criatura guinchava ou ofegava e a Criança entrevia as orlas de seus dentes sob os espessos lábios. Tentou então dispensar o espanto e seguir os dias como de costume, embora já não fantasiasse o animal, que no entanto fuçava as roupas no chão, para vestir-se. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A Mãe nada notou. Passava horas abraçando-se, fechada sobre si, tateando a anatomia de sua Fome, sentindo-a abrir as asas gélidas sobre a parede oca de seu estômago e ecoar os salmos de uma nova existência onde tudo é remoto e nada persiste, nada se retém pois a epiderme do mundo havia-se alisado, nada guardava solidez, o âmbar da vida escorria, desperdiçado. 


VI


E certa manhã a Criança, que dormia com o porco, sentiu no rosto não a casca grossa de uma besta mas pele macia, como a que ela própria tinha no interior das coxas. Abriu os olhos e notou que a pele rosa do animal continha agora tons mais claros. Voltou-se à janela e viu a luz fantasmal da manhã embaçar os contornos das coisas, e atribuiu a mudança cutânea ao astro. Mas o porco virou-se e o que ela viu no animal foi sobrancelhas mais volumosas, orelhas mais abauladas, dois mamilos redondos de bico estreito, e mais: pequenos gânglios na pata direita — cinco nódulos redondos despontando para fora da epiderme, sebosos e vermelhos, ainda informes, como se o ato de construção corpórea ainda estivesse em curso, e o que surgia ali? Rápido cobriu a cena com o lençol da cama e examinou o quarto, à procura da Mãe. Ninguém ali estava. Aliviada levantou-se e fechou a porta. Para cobrir as mudanças voltou a vesti-lo com as roupas do Pai, que o animal de bom grado aceitou. E atou a pata do animal, preservando a mutação. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; À noite, quando a lua ia alta, removeu a atadura. Encontrou uma mão humana. Sem saber ao certo a razão, entrelaçou os seus dedos ali. E jurou sentir um tímido aperto. 


VII


Com uma folha sobre a mesa, a Criança pousou o porco no colo e deu-lhe um pincel. Ele não soube segurá-lo. Em sua mão englobou a mão do animal e ali fixou o objeto, na esperança da criatura que nada dizia falasse por outro canal. Por muito tempo manteve-se ali, como num transe à espera de uma palavra, um desenho, um risco cujo aspecto denotasse algum traço de humanidade, de elipse mais resoluta do que os garranchos das bestas. Qual seria a linha que divisa os animais dos humanos? A criatura move o pincel, ou seria minha a mão que conduz?, pensava. Os esboços do animal eram como um urro abafado por detrás da cortina, como um feto em unhas lanhando a placenta, havia ali no verso uma pulsão na ânsia de libertar-se. Ou só memória muscular, talvez. Sendo assim, o pulsar que sentiu quando entrelaçou-lhe a mão seria mero lapso involuntário? Mas então que lembranças moviam os músculos da criatura, do leito de que passado ela extraía os vultos de seus gestos? Haveria ela sido, em dias longínquos, mais que uma besta? Pousou o pincel e abraçou a criatura. Adormeceram sobre a mesa. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; No andar debaixo a Mãe embriagava-se em lânguida sonolência, fixada no prato que havia arranjado à Criança. Os últimos grãos da casa dispersos no esplendor da cerâmica de bordas circulares, como as fronteiras enfeitiçadas de um território à Mãe proibido. Ela ajoelhou, humilhada ante a pequenez daqueles grãos. E da polpa de um dos grãos&#38;nbsp; ela viu brotar uma luz cujo calor tremulante revelou-lhe delicioso augúrio: sentiu a carne do porco em seus dentes, sua gordura boa na garganta, escorrendo em sua cara na casa nas paredes do mundo, untada e ungida pelo próprio Deus, e seja bendita vossa gloriosa banha, derrama, ó Deus, sobre mim a tua graça, o teu nutritivo néctar pois agora entendo, o porco é teu anátema, ó suíno que tiraste o pecado do mundo, remova também a Fome ao consagrar a minha barriga! E o fio de seu machado brilhou com o fogo brando do arcanjo mais gentil do Senhor e não queimou a sua mão quando ela segurou-o.


VIII


A Criança meditava sobre a condição do animal. Seguindo a metamorfose o seu curso, dali brotaria, era lógico pensar, um humano. Enfim alguém não só dotado do recurso da expressão mas que também o conhecesse por inteiro, que houvesse fitado as minúcias de sua natureza com a sabedoria compreensiva dos animais. A relação entre os dois transcenderia assim o teto das interações humanas. Em silêncio a Criança havia revelado a sua alma arcana à criatura. Logo poderia, enfim, recebê-la de volta, decifrada por alguém que partilhava da sapiência das bestas e dos humanos, um monstro sagrado que cruzara as margens da natureza, que riscara as suas leis, que desprezara os seus dogmas. Qual seria o veredicto de tal criatura, sua mais nobre amiga? Tanto tempo deitando o seu espírito no leito desta amizade. Ver-se enfim refletida sobre o espelho de tal consciência parecia-lhe um evento tão singular quanto a primeira vez em que uma face humana contemplou-se na superfície de um lago de águas claras. Qual seria o juízo das bestas sobre o espírito humano? Sua inclinação filosófica ao misterioso devorava-a viva. E no entanto havia algo mais, esquivo e quente na base de sua garganta. Talvez a sua euforia, seu assombro, não se resumissem à investigação científica. Pois por detrás da aparência do animal, nas nuances de seus gestos e no matiz de sua aura havia um estranho subtom, um acento fantasmal que lembrava-a daquele que em sua vida foi primeiro deus depois ausência, que ao partir em sigilo deixou formigando nos ares da casa o rancor e a repulsa, o anseio e a melancolia. Aquele cuja falta tornou-se um núcleo ao redor do qual a Criança girava todo um mundo encantado por coisas à ela desconhecidas. Seria este animal algo mais que mero humano? Seria ele o seu Pai? E fosse ele o seu Pai, teria a sua essência mantido-se inalterada pelas mutações físicas? No turbilhão humano, qual seria o real teor do toque entre espírito e corpo? A mudança do corpo implica na mudança do espírito? Há em nós um cerne inalterável, cristalizado em nascimento ou mesmo antes e imaculado pelo porvir e acaso? Ou seria o nosso âmago um fermento selvagem que integra ao seu volume todos os eventos, por menor o seu vestígio, fazendo do humano a massa passiva das pegadas do mundo? 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Para todas estas questões de distintas naturezas, pensou, haveria de receber uma resposta quando a metamorfose concluísse.


IX


E houve um dia em que a Criança viu algo novo naqueles olhos. Um brilho ali emanava, na espessura das retinas, um algo transitava em seu íntimo, pulsando enterrado nas areias do ser, este lampejo, gaguejo, este risco ou erro evolutivo, este elã que açoita os nossos anseios, um vibrato nas pupilas, este ardor ou maciez, este cansaço ou desconforto que talvez mal interpretemos como a existência do eterno, este peso, esta leveza, um lapso um lume não ao todo distinto daquele que a própria Criança e sua Mãe carregavam ou que via riscar os olhos do Pai quando o inverno virava e o meridiano soprava os orvalhos do campo e os cavalos batiam as crinas na orla do rio, sob os plátanos. O que a Criança entreviu nos olhos do animal foi um nada, foi um tudo, a menor e a maior das mudanças. Ali testemunhou a travessia da criatura, enfim mais humana que porco. Pela primeira vez estava diante de um igual. Sentia nas costas um calafrio e no peito uma forja quente, sua garganta estreita e seu estômago largo. E nos olhos da Criatura ela viu uma vastidão em muito mais profunda que o espelho de águas claras onde pensava encontrar-se. Na membrana daquelas retinas havia um abismo de leito oceânico e escuro que, temível, convidava-o. A Criança ansiava uma resposta mas o que via agora era um enigma, ela queria ser decifrada mas encontrou alguém que, assim como ela, desconhecia-se. E quem seria este alguém? Acercou-se da Criatura.


X


No dia seguinte a porta do quarto abriu-se. A Criança notou o machado no ombro ossudo da Mãe, que levantou a lâmina. E a Criança nada fez, seus olhos duros travados no nada. Agora a Criatura não espantou-se. Estendeu serena o pescoço ao chão para receber o golpe. Caso a Criança não tivesse alienado-se no canto do quarto talvez penetrasse os olhos da Criatura e ali mergulharia na mais bela calma, onde a iminência da morte faz tudo convergir e revela ao moribundo a topografia secreta de sua vida, seu passado esquecido, seu desfecho inevitável e também vislumbres do além, como um grande olho aberto alternando-se entre os países dos vivos e dos mortos. Ou talvez a Criança perguntasse se ali morria o seu Pai. Difícil saber se notou o barulho seco da lâmina sobre o assoalho, ou os estalidos do porco no fogo da lareira, ou o sabor inusitado da carne, que assemelhava-se à suína, mas guardava notas de outro tipo. Salvaram-se mastigando-a como autômatos carentes do lume que anima nos corpos o risco do eterno.
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		<title>O Subsolo</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/O-Subsolo</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:10 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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	O Subsolo

Os seus discursos e os atos dos trabalhadores ajustavam-se de modo tão feliz que se poderia dizer que estes homens não eram senão os seus membros. Tu não acreditarias, Sócrates, que alegria era para a minha alma conhecer uma coisa tão bem regulada.
Paul Valéry. Eupalino, ou o Arquiteto.


um muco de suas narinas escorria
Hesíodo. O Escudo de Héracles.
I


Eis a dura linha do rigor. As largas asas das aves abertas sempre em simultâneo, constrangidas ante tal bucólica geometria. Seus pés firmes nos ramos das árvores vergando todos juntos, no perfeito charme dos ângulos cheios. Um moroso adestrador as conduz, com seu bastão de ouro, aos devidos lugares. Ao seu lado rabisca o subalterno a tabuleta de argila em elegantes equações, calculando o arranjo geral pelos pesos dos pássaros e grossura dos galhos. Ambos movendo-se, também eles, em modelar simetria. Os passos do pé esquerdo de um alinhados aos do direito do outro. Estátuas crescendo em tamanho segundo a sequência fibonacci, e ordem anti-horária. Partículas de poeira metálica acumulando-se em harmonia sobre as curvas das folhas e o número de lâminas da relva respeitando os arcos nos frisos do espelho d’agua. Painéis de muxarabi em padrões matemáticos cobrindo o jardim, ocultando o céu e controlando a luz do sol, descendo em talhos retilíneos como pilares cintilantes pousando apenas onde compõe o esquema total. Como na saliência do saltério deitado no banco de pedra, suas cordas em número igual às pétalas nas dálias para onde aponta a sua cabeça. Ou nas espaldas dos quatro casais de amantes enroscados nas quinas do jardim sempre quando a lua esconde-se atrás da platibanda. Ou, curioso, nas largas narinas do general Borrifato que, da janela a tudo isto atento, tinha um terrível, terrível resfriado. O plácido combatente despertou de seus devaneios apenas quando a sua jovem valet martelou-lhe a têmpora, duas vezes com a ponta do dedo. 





&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Toucinhos do céu?’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘De cada coisa um pouco, como dizem os franceses. E estes querida, o que seriam?’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Barrigas de freira.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Ah. Sendo assim, nem te pergunto o recheio. Aceito uma ou duas, se o Messias permitir-me provar o que a ele pertence.’   

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Não há recheio. É justo esta a piada.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Pois esperava mais da libido eclesiástica.’ E de sobrancelhas elevadas no arco certo do deboche, beijou o doce onde estaria o seu umbigo.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘És um depravado, Borrifato. Teu pinto fino fareja todo tipo de tabu e alegra-se com o que não lhe cabe. É justo por isso que discordo de ti, do que me dizias.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; À barriga da freira ele diz ‘Ela discorda. Perdão, como?’ E cola-a ao tímpano. ‘Pois te digo, discorda! Ante a mais gloriosa lucidez, que fazem os jovens? Agarram-se ao divino direito de contrariar.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘De forma alguma. Penso apenas que, ao invés de negociar com as intempéries e a fome, prefiro eu cortejar a estranha Madame, entre bons doces e bela música.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Talvez’. E contemplava a impecável simetria do jardim, seus ângulos retos e íntegras curvas, suas árvores paralelas em exata planície, tudo composto em exemplar natureza, para exterminar o que é indômito e alegrar o gênio humano. E pinçava sonolento as lembranças dos bosques e colinas, córregos e clareiras selvagens onde cresceu, naquela vida que escondia suas carícias no verso das coisas mais banais, como os passos da raposa e a tosse do pai no quarto, a chuva na testa e a haste dos legumes, as farpas nas ferramentas e as costas lustrosas das trutas, as rugas do vento e a aguardente da mãe, a carne flácida nos calcanhares da avó, o quebra-nozes que mordia-lhe os dedos. ‘Mas sinto falta de toda a pobreza do mundo. Da glória da decadência. Tornei-me um derrotado espiritual em busca de esmolas materiais, lançado ao mais torpe conforto, que atrofia a alma ao alargar a barriga. E lamento a morte do tempo, que não prolifera nestas galerias e jardins.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A valet contemplava o general, a sua papa balounçante avermelhar-se pelas marés de açúcar na boca — ou talvez pelo particular impacto que certos levantes nostálgicos imprimiam em sua figura. E partilhou de sua angústia. ‘És um narcísico, meu senhor, viciado na própria ruína, e tão distante de tudo que já não sabe o que estudar salvo a si mesmo.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘E tu, minha cara, és uma insubordinada, uma indolente e mutinosa criatura. Mas como podes falar assim com o teu superior? Felicito-te.’ E deu-lhe uma marota piscadela mas manteve-se piscando mesmo quando voltou a face à janela, como se este gaguejo fisiológico revelasse o impasse do homem ante um pensamento infeccioso, de singular inquietude. ‘Não há nada, minha cara, menos digno de atenção do que eu próprio. Ocupo-me não de mim, mas das coisas que tive e já não tenho.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Não encante-se com o brilho de suas lembranças. O mundo é nada mais que a apatia de formas mudas sob o sol. Todos estes teus bucólicos amores são estofo inventado por ti para encontrar beleza numa realidade pobre, como um mendigo que enche a própria mão de migalhas para convencer-se que o mundo é farto. O que via nas dobras da natureza era a sua própria alma refletida nos líquenes das pedras e nas pernas dos insetos, preenchendo este mundo oco com a matéria de seu próprio espírito.’ Mas como perdia-se na meiga melancolia de coisas mortas, pensava a valet. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; O homem rubicundo roía agora as bordas de um éclair de baunilha. E bicava um licor de laranja. Os olhos lentos e a testa tesa sob os tendões de suas lembranças em contraste com a lividez dos dedos e boca, ocupados como estavam pelas delícias do dia. Era a clara face de um homem cindido entre o brilho da baunilha e os grânulos de uma vida perdida, entre passado e presente, entre a sobriedade da mente e a opulência da boca. E ao centro, o nariz. Farejando em abas largas uma possível resposta para sempre fugidia, dado o terrível estado de seu resfriado. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘E também’, agrega a valet, ‘que falta real fazem as coisas de tua infância? Talvez encontrem leito mais macio na nostalgia, onde o brilho da memória polvilha os córregos de uma prata inexistente e sopra as colinas com um vento que nunca houve, mais bonitas pois já não é possível subi-las. O passado é fantasia de covardes que tem medo de um punhado de pó, mas brilha bem quando sabe-se lembrar.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ao mastigar, solene ele disse ‘Sua sabedoria, querida, é venerável, mas tampouco me consola.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Sim, mas Telurópolis o reconforta, ou não? Pois lembre-se, não só de gentis córregos e colinas se faz a natureza. Aqui escapamos das tempestades e das feras hostis, das doenças dos estrangeiros e da falta de alimento, para atuar num ambiente onde o humano é senhor.’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Senhor? Há muito não sou senhor de mim.’ E entre espirros disse ‘No momento, minha cara, meu senhor é o catarro.’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘E também estes deliciosos canapés.’ Ao que a jovem valet jogou-lhe um dos doces à boca, que Borrifato mordeu com grande destreza.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Fosse eu a Madame’, absorto ele diz, ‘teria não muitas mãos, mas bocas. Duas em cada uma de minhas quatro faces, e oito concubinas alimentando-me na ponta de seus longos dedos.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Com tantas outras barrigas, também. E perdoem-me todos pela multiplicação do que no singular é já pecaminoso.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘És a própria Pandora.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Se tu não o fosses antes.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Disso eu gostaria, te confesso.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Pois eu, não.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘É este o teu problema. Muito afeita às normas.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Quando a mim são favoráveis, sim. E aqui há muito o que agrada.’ E limpou com um lenço os resíduos de açúcar e catarro na boca de Borrifato. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Há prazer aqui, é claro que há. E no entanto é alto o custo. A suntuosa vida, toda forma sem conteúdo, com seus rituais auto-indulgentes e cerimônias absurdas, sufoca-me o coração. Amarra-me as veias. Em meio à opulência destas mil maravilhas já não distingo a minha face. Tornei-me engrenagem. Mas gostaria de ser algo diferente. Uma outra criatura.’ E ao abrir a boca para morder a sua éclair, Borrifato treme a mão como se o doce ganhasse vida e, rebelde, forçasse o punho para cima, longe da glote aberta, ganhando altura triunfante, ascendendo açucarado ante a janela entre as estrelas do domo celeste por detrás do muxarabi, livre enfim.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Devo lembrar-te a anedota que tu mesmo me contou? Encantado com as estrelas, Tales de Mileto tropeçou e caiu num poço. E todas as donzelas riram-se dele. Como agora eu rio de ti.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Nobre Tales.’ Borrifato perfurou com o dedo a éclair e espiou no buraco. ‘Mas o que as risonhas convivas falharam em perceber, minha cara, foi que de dentro do poço Tales via com extrema exatidão o caminhar das estrelas, enquadradas pela boca do túnel. E assim o sonhador inventou o primeiro telescópio.’ Borrifato colocou a éclair sobre um dos olhos, como uma luneta. ‘Do poço de meu presente eu contemplo, feliz, o céu de meu passado. É vero o que disse agora há pouco. Há certas coisas apenas conhecidas à distância. A eterna prontidão destes tesouros palacianos esconde a tudo na proximidade. Mas é na lonjura fora de alcance e controle, minha cara, que encontro o centro de meu espírito.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Fale baixo. Outros escutam.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Que ouçam.’ &#38;nbsp;


II


Não se esquecerá o dia em que um grupo de homens nus surgiu, como brotados do chão, no pântano comprado de forma anônima ao centro do singelo vilarejo. À distância os habitantes viam-nos na pestilência daquele terreno, entre as raízes altas das árvores e o rumor dos sapos. Nas mãos arrancando argila da terra e moldando-na em tijolos, telhas, pilares, na borda das unhas esculpindo austeras senhoras de muitos braços e utensílios de todo o tipo, rompendo no punho os troncos das árvores, nos dedos rasgando as suas cascas, nos dentes lixando a madeira. Por duas vezes um deles sacrificou-se para dos ossos fabricarem ferramentas de corte. Dormiam sobre o solo revolto com os corpos cobertos de lama por inteiro camuflados salvo os olhos abertos, por detrás da retina calculando os pesos e medidas da estrutura. Homens sem língua ou espírito mais parecidos com bonecos de barro encantados na construção de um tempo ainda carente de seu deus. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E então partiram. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Atrás deixaram a casa, imensa e delirante, que humano algum é capaz de contornar. À noite ouvia-se o ranger de suas tábuas, o estalo de suas arestas, o crepitar de seus vazios, preparando-se, preparando-se. Havia algo estranho ali, na anatomia daquele lugar. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ninguém tampouco a viu chegar. E certo dia abriu-se a porta do palácio, donde saíram homens de pele limpa em fraques de linho e babados de seda, brincos de ouro e botas de couro. Carregavam nos punhos a liteira de ouro onde reclinava-se, imponente, Madame Teluris. Seu tamanho ao menos o dobro dos outros. Toda sorrisos. Da fenda central de sua longa túnica saíam numerosos braços finos, tantos quantos era-lhe preciso, em cuja pele olho algum jamais pousou. Pois cobertos em longas luvas de veludo verde. Alguns tinham leques e abanavam-lhe a face, outros acenavam às pessoas, outros serviam-se vinho e uvas. Outros tantos colhiam de dentro da túnica punhados de peças brilhantes que deitavam ao chão de barro, torrentes douradas de moedas de ouro com o busto impresso da Madame. Bizarro espetáculo, o milagre de seus fecundos membros. Mas se de início a todos espantou, logo tornou-se mais um dos estranhos dons daquela mulher, gravitando ao redor de sua existência, suscitando todo tipo de hipóteses. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E como mágica toda a cidade passou a condensar-se ao redor do fascínio daquela figura, dispostos a modificar as suas vidas para melhor acolher seus interesses e humores. Tudo valia para vencer-lhe a simpatia, atalho máximo da riqueza. Armavam vigílias ao redor do palácio, e pisoteavam-se na multidão que escoltava a nobre senhora em seus esporádicos passeios. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Impelidos por relatos que narravam a opulência da Madame de tantas mãos, muitos vieram na esperança de partilhar das volúpias e captar lascas das benesses desta messiânica criatura. Donzelas e operários, duques e plebeus, príncipes falidos e prósperos gigolôs, imensas golfadas de aristocratas e miseráveis arremetendo todos os dias às suas portas, ocupando as ruínas, casas e clubes e praças e calçadas e terras baldias da cidade, seus dorsos curvos sobre o peso das posses ou a falta delas, bens há gerações na família ou recém furtados, advindos de outros palácios ou do erro mais rançoso do mundo, errantes de todos os ermos lugares e ricas regiões. Todos eles como pedintes ao redor do palácio. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Quando a Madame enfim surgiu sob a soleira da porta principal, houve quem ajoelhasse na lama com as palmas viradas acima. E contemplou a servidão de toda aquela gente, suspensa em silêncio à espera de uma palavra sua. Eram todos bem-vindos à Telurópolis, disse, minha casa de muitos quartos. Pois em meus braços há sempre colo aos que buscam uma mãe. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ao seguirem-na, hesitantes, pelos corredores escuros de sua morada, muitos assustaram-se com a anatomia de seu caminhar: a senhora não andava ereta, mas deitada sobre inúmeras mãos. Como fazem as centopéias. 


III


Terulópolis é um monólito semi-enterrado de longos muros fechados ao mundo, suas janelas abertas apenas aos inúmeros pátios internos. A magnitude dos espaços oprime o corpo humano, pois a escala de tudo ali teve como molde a imensa Madame, que aprecia ver-se em todas as coisas. A altura dos tetos e a vertigem dos domos em seus amplos salões dilatariam o menor dos gestos num eco de potência sônica não fosse a densidade das paredes de terra, que a tudo absorvem.&#38;nbsp; Superfícies de barro ainda conservando a força primitiva, ctónica, dos músculos de homens macabros sem língua, pouco mais que bestas selvagens, criaturas precárias de trabalho impecável que nas conchas das mãos a tudo construíram. As paredes e o piso, os domos dos salões e as escadas de altos degraus, tudo feito da terra úmida do pântano onde decompõe-se esqueletos e adormecem crocodilos. E ao fim ainda tiveram energia para esculpir em baixo-relevo, em todas as imensas paredes do palácio, o relato de sua diligência.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Nas lacunas entre os elementos de tal solene arquitetura, vê-se faiscar os fios de ouro nos fraques dos homens e vestidos das mulheres, seus corpos lassos sob as tantas camadas de tecidos em damasco e rendilhados de linho, sob o pó da maquiagem e o peso da peruca, estirados nas poltronas e sofás, chaise longues e almofadas, reclinados em divãs e canapés, imóveis no embalo da letargia e ócio vitais. Aqui cultiva-se a indolência apenas manifesta em ambientes onde consegue-se habituar, e enfim desdenhar, do opulento encanto de todas as coisas que aos outros tiram o fôlego. Mas espanta-se com o arco perfeito de uma casca de limão cortada como pormenor de uma bebida, ou com o pálido sub-tom no reluzir de um broche. Entre o&#38;nbsp; cristalino silêncio de candelabros e o esplendor dos pés de ouro das mesas, entre os babados de seda nos seios das cortesãs e as meias de cetim dos homens, um bocejo calado é talvez o maior dos gracejos.

 &#38;nbsp; &#38;nbsp; E caso, no terrível conforto de seu descanso, o bocejo se expanda em cochilo de tantas horas, nem sequer um instante do dia terá sido perdido. Nos domínios da Madame o próprio tempo suspende o seu tear e já não corre mais. Em sua inércia, coagula o ar, torna-o espesso, pesando o corpo de todos, estirados como estátuas na macia mobília, salvo em esporádicos golpes de punho para mover os leques de ouro ou em morosos comentários onde debatem os gracejos favoritos da Madame. Ou quais sabores seu palato favorece. Ou o correto emprego das pausas entre palavras, para não cansar-lhe os ouvidos. Ou quais acordes secretos do alaúde ainda não comoveram o seu gosto musical. Ou o grau perfeito no arco de uma mesura. Pessoas cujas vida eram antes dedicadas a temas tão variados quanto a anatomia humana e o crescimento dos vegetais, a resiliência financeira das nações e o correto exercício da justiça, agora ocupados nos humores e devaneios da Madame, dona absoluta de um mundo assentado em eternos rituais onde todo dia é a cópia exata do anterior. Pois tudo em Telurópolis fora calculado pela Madame. O ângulo dos raios de sol entre as cortinas. O arranjo dos móveis. As alianças e antipatias na corte. O ritmo do mastigar. E todos os dias repetido à minúcia. Em seu palácio criara um mundo de controle total, perfeito sistema de inflexível rotina, de hábitos e símbolos próprios onde o acaso não existe e há pouca, ou nenhuma, tolerância a transgressões. E quando morre de velhice um cortesão, simula-se um homicídio de tal prodigiosa execução que torna-se impossível descobrir o malfeitor, permitindo assim, em simultâneo, o oblívio do tempo e o repouso de todos. Fora isto, para as rugas nas faces e escassos cabelos que são os resíduos da marcha dos dias, há sempre boa maquiagem e gordas perucas. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; 










E ao centro dinâmico deste estático mundo, no meio desta turba de velhos decrépitos e jovens arrivistas, de pelancas pinceladas de rubro e polvilho branco nas estrias, das tesas costas dos meninos e clavículas saltadas das garotas, dos dentes podres dos idosos e vigor nos dedos das crianças, todos idênticos na película encerada da maquiagem e cerdas gordas das perucas, indistintos aos sentidos, ei-la. Madame Teluris, sentada numa poltrona de malha persa. Absorta no elã divino de seu próprio tédio, como se todos os estímulos da vida por ela elaborada fossem, quando muito, sombras de uma outra instância menor, tão alta está no auge de sua elegância. E demora a responder os decoros dos outros, como se à ela escapasse da dimensão de um instante, ou a urgência inevitável das interações, em descaso deixando escapar fiapos de palavras.



&#38;nbsp; &#38;nbsp; Mas nos longos intervalos entre os comentários dos convivas e as melodias avulsas de cravos e oboés, pode-se ouvir por debaixo do piso, sob o silêncio humano de tão educadas assembléias, um estranho tilintar metálico. Sua cromada teimosia de quebrar o encanto daquele mundo em suspenso. Mas ainda distante, e precário. Custa pouco aos cortesãos afinar ouvidos a outros timbres mais simpáticos. 




IV


Todas as manhãs o mais seleto dos comitês é conduzido à câmara privativa de Madame Teluris, para auxiliá-la nos rituais matutinos. Vêem-na já vestida em sua túnica, sentada no toucador penteando os&#38;nbsp; longos cabelos que cobrem, em labirintos de fios ondulantes, o piso do aposento e os pés de toda a corte. Em gordas tranças volteia a cabeça até fixar os cabelos acima, ordenando-os. Depois maquia-se. E honra a um dos cortesãos com a tarefa de recolher o seu penico de ouro, sempre cheio de moedas, e revelar aos outros o milagre vespertino da Madame que da bosta faz nascer o ouro. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Abrem-se as janelas de seu quarto. Da sacada, cumprimenta a multidão reunida no jardim. E descreve o programa do dia. Certa manhã, só de troça, mandou todos andarem de costas. Em outra sentiu-se baixa e fez todos caminharem de joelhos. Houve ainda o dia em que, ao despertar, encontrou na curva inferior da bochecha uma nova ruga.&#38;nbsp; Em desespero ordenou a todos que cortassem suas faces neste mesmo desenho, convertendo-a assim a traço inerente do corpo humano — igualar-se à Madame, que seja em reles ruga, foi motivo de orgulho para mais do que alguns convivas. Certa vez os rumores do rio não deixaram-na cochilar. Disse que aterrassem-no. Os senhores e senhoras do palácio com baldes de lama transbordante em suas mangas de brocados carmesim. Num dia de singular brilho solar lamentou-se por ser noite e mandou todos às camas. Se a Madame não tem forme, ninguém come. Se quer beber, tragam todos tantos goles quanto ela, lançando o palácio num estado de completa derrisão moral e desapreço pelas normas, ao que a Madame súbito volta à sobriedade, e quem não acompanha-a deve ao menos aparentá-lo. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E todos os dias, quando as aves do jardim central abrem as asas três vezes, um homem chamado Rolain aborda a Madame, oferecendo-lhe uma madalena recém cozida, que ela mordisca para criticar a proporção entre leite e açúcar. Dali a três quartos de hora outro conviva de nome Nataniel convida-a para um jogo de cartas, ao qual a Madame de início recusa, para depois aceitar ao atravessarem a soleira no salão de descanso. E a cada sete dias um dos súditos comenta que a senhorita Cassandra levara o marido da senhora Gertrude num passeio deveras longo por entre os arbustos, falha de pronto castigada com a morte dos três, o delator e os amantes, dado a repulsa da Madame a segredos. É este o mais ingrato, ou honroso, dos teatros. Os intérpretes são sempre novos, dado que seus personagens já foram executados inúmeras vezes. Do cortesão é esperado atuação convincente, mesmo tendo tido poucos dias para ensaiar e além de tudo sabendo que morrerá. E a senhora Cassandra de fato leva o amante aos arbustos, há dias residente no quarto da senhora Gerturde (para imbuir veracidade à cena), ambos lançando-se no que decerto é o mais exultante dos coitos, dado a iminência do cadafalso. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; À tarde jogam cartas. Cavaleiros, poetas, políticos, filósofos, ladrões, farsantes, alquimistas de outrora, agora estimados consortes de cotovelos cravados na mesa da nobre Madame, cujo cansado semblante lançava sombra sobre os ombros de todos, incluso os da valet, e o sublime jogo em suas mãos. Substituía Borrifato que, na esperança de curar o seu terrível resfriado com uma pasta de ervas roubada da cabeceira do Senhor Solinóis, pedira licença à Madame com a desculpa de uma indigestão. Em geral Madame Teluris não entretinha tais torpes transgressões, mas dado a graça da valet, que caía melhor aos olhos, consentiu. Com a condição de ter a ele (e sua valet) em perfeita forma na seguinte cerimônia matinal. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Na borda dos belos olhos a valet podia ver a Madame de inúmeras mãos manejando as cartas e a taça de vinho, contando moedas e servindo um charuto à boca frouxa. Sua névoa ofuscando-lhe a face maquiada em tons de branco e vermelho, como as peles lisas das bonecas. Mas toda a encantada mecânica de sua anatomia não é imune a certos deslizes, pois sabe-se. Quando a Madame blefa, falha o punho de seu terceiro braço. Treme a superfície frisada do vinho. Se em seu palácio a Madame criou um sistema de controle total onde a riqueza e o conforto eliminam o imprevisto, é no vício do jogo onde a nobre senhora pode ainda testemunhar os caprichos do acaso. E amargar a má sorte. Suas muitas mãos controlam todos os aspectos da vida no palácio. O baralho de cartas ainda escapa-lhe. E todos fitam-se em calado incentivo. Quem apostará contra a Madame? Mas deitam-se os olhos e cai a coragem. A valet fechou as cartas. Ali não joga-se para ganhar, mas para conservar a vaidosa fantasia da Madame, suposta senhora de todos os aspectos da existência. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Ouvia-se à distância o estalo das cartas quando os tesos dedos da Madame deitaram o jogo pífio à mesa, mais uma vez vencendo sob o fingido assombro de todos. Ria-se alegre, os dentes brancos como as tíbias dos cavalos. Novos braços surgiam da túnica para terem as mãos beijadas pelos derrotados, tantos quanto bocas havia. Mas a voz que usava para debochar da inépcia dos cortesãos não lembra, em timbre, a das mulheres. Talvez fosse quase possível notar, nas bordas das palavras, o sutil desalinho entre sua boca e sua fala, que sequer parece sair-lhe da garganta, mas do topo de sua icônica túnica, rubra como a carne da terra, a mais impecável das vestes, com figuras costuradas à fio de ouro onde um demônio telúrico mastiga multidões de pessoas entre montanhas de ouro, tudo composto numa geometria em muito acima dos mais virtuosos arabescos do arenoso oriente. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Caminhe, Madame, pelas salas de seu palácio onde são todos bem-vindos exceto o tempo e o acaso, neste mundo encantado de imaculado rigor e absoluta ciência, onde profecias não assustam pois tudo o que será, já foi. E cante, Madame, no selo dos lábios, pois há tantos cortesãos sempre ao redor, ampla horda simulando os seus gestos, rindo quando ris, bebendo quando bebes, comendo quando comes, vorazes idólatras na ânsia de partilhar desta coesa estrutura que é o fenômeno de tua existência. Sabes decerto quão bem visto é o ato entre as mulheres — e alguns dos homens — de copiar-lhe a rubra túnica e nela cobrir os filhos para fazerem as vezes de teus mil braços. Ao imitarem-na em teus passos de centopéia, tropeçam na própria prole. E quem há de acompanhar a velocidade de teus passos, tuas patas ocultas sob a túnica, quantas seriam? São todos teus sósias, do chão vendo as costas da túnica, estupefatos ante o grânulo de teu brilhantismo.


V


Portanto não espanta a força semi-divina com que o general Borrifato combateu os ímpetos de seu nariz, cujo deplorável estado seria algo trivial, quiçá tímido incômodo, caso não se encontrasse na câmara íntima de Madame Teluris. A poucos permitia-se o privilégio de acompanhar os rituais matutinos da gloriosa senhora, compostos de delicadeza tal que mesmo a reles fungada de um subalterno poria tudo abaixo. Determinado a controlar-se, primeiro adotou tática de imposição física e apertou nos dedos o nariz. Não resultou bem. Depois buscou abordagem mais mental e repetiu a si o mantra de que era ele o senhor de seu corpo, não o nariz. Chegou a vigorar mas apenas por um tempo. O muco acumulado escorria nos bigodes. Elaborou então, no calor do momento e de forma admirável, um tipo de fungar lento, pianíssimo, para camuflar o constante ruído do nariz sob a cortina do silêncio geral. Mas todo o seu brilhantismo militar foi vencido quando enfim espirrou sob tal força que chicoteou-lhe a cabeça e lançou a peruca abaixo, fraturando o tão solene equilíbrio da cerimônia e, no alarde geral, abalando sobretudo os delicados tímpanos de Madame Teluris. Cujos braços detiveram-se, suspensos no ar. Toda a corte em silêncio. Cabeças baixas. O homem enfim tomou coragem e disse Perdão, Madame Teluris. Grande azar. O instante em que emitiu palavra foi o mesmo em que a Madame havia decidido voltar à cerimônia, tolindo-a pela segunda vez. Ela quebrou na mão o estojo de maquiagem. O produto polvilhou-se em névoa creme. Borrifato espirrou uma segunda vez. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Perdão?’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Perdão.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Mas pelo o quê, nobre Borrifato?’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Pelo espirro, Madame Teluris.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Espirro?’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Espirro.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘E pelo perdão, ele próprio tão perturbador?’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Perdão pelo perdão, Madame Teluris.’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘E pelo segundo espirro?’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Também por este, perdão.’&#38;nbsp; &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Mas é a sua boca quem pede perdão pelos impulsos amotinados do nariz? Seria ele tão covarde, senhor, que após relampejar sobre a delicadeza de nossa cerimônia já mais nada tem a dizer?’ O semblante apático da Madame. Os glaucos olhos absortos em coisas apenas a eles visíveis. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Madame, meu nariz? 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Este pedaço de carne moída que tem entre os olhos, sim.’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Mas o nariz não fala, Madame.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Pois falou agora há pouco.’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Meu nariz sou eu. A boca também.’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Também o pescoço. Será ele o sacrificado?’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Não, por favor. De forma alguma.’&#38;nbsp; &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Então, gordo nariz do senhor Borrifato, peça perdão. E por deus, vista a sua peruca. Não tens etiqueta, homem? Daqui vejo saltarem as veias de tua careca.’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; O catarro acumulado na borda da boca. Fitou os outros. Todos desviando a vista, sem saber onde pousa-la. Borrifato tampou a narina esquerda no polegar e no indicador pressionou a direita na esperança de emitir algum acorde ou nota menor indicando a tristeza do remorso. Estudara trompete no exército e sabia dos afetos tonais. Inclusive pensou-se deveras espirituoso por tal idéia. Que revelou-se insuficiente. Som algum saiu dali. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Faça o seu nariz falar, senhor! Ou farei eu.’

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A pele em brasa de Borrifato incitava algo há muito adormecido no leito mais íntimo de sua alma, e no tremer dos lábios escapou-lhe a palavra ‘Não.’ &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Não?’ Em leves errâncias na sinfonia de seus braços podia-se entrever a surpresa da Madame. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E de corpo vacilante sobre os calcanhares, um pálido Borrifato confirmou. ‘Não’. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A Madame lançou longe o estojo quebrado e gritou SIM! SIM! SIM!, pela primeira vez erguendo-se ereta, ganhando altura como se a cada palavra fosse gerada nova vértebra em sua coluna, a todos diminuindo sob o peso de sua presença, até sua cabeça tocar o teto e precisar curvar-se adiante como uma imensa cobra compondo, lenta, o seu bote. Estavam face a face. Borrifato podia ver, por detrás da maquiagem afinada no suor da Madame, o peso de uma face mais velha que o mundo e escorrida por um tempo galático, suas fendas e pelancas como a marca dos primeiros golpes de meteoros. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Sim?’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Sim.’&#38;nbsp; &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; ‘Não…’ 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A Madame hesitou. E recolheu-se ao tamanho normal. Venha cá, por favor, filho meu, disse em brando sorriso, seus dentes uma fileira de tíbias. Assustado, ele acercou-se. E então, Madame, você abraçou-o, aquele homem rubicundo de suíças e bigode branco que vivera a vida de peito estufado e baioneta nas costas nos campos onde são lançados, a ferro e sangue, a sorte de nações, e ele era tão pequeno em seus braços. Com uma das mãos catou um lenço em sua túnica e assou-lhe o nariz. Com as outras afagou-lhe a cabeça. Ele fitou os seus olhos tão largos, perdido no brilho baço de suas primitivas retinas. E pediu-te perdão, Madame Teluris, perdão. Você acalmou-o, disse não ser preciso preocupar-se. Me decepcionas, filho, e eu abro-me ainda mais para ti. Ele chamou-te de mãe. E então, grande senhora, você comeu-o. Seus braços recolheram-no para dentro da túnica e dali a instantes viu-se fios de sangue surgindo nas bordas da veste. Espalhando-se pelo aposento. Os braços foram servindo-lhe pequenos pedaços do corpo do homem, um após o outro por horas a fio, e você comeu-os sob a leveza de teus olhos pesados e, cansada após tanto tempo, as mãos até moviam-te o maxilar. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Atônitos ante a extensão do escândalo, ninguém ousou emitir som. Apoiavam-se no dossel da cama, encostavam nas paredes, as palmas sobre as quinas dos móveis, todas pífias tentativas de conservar a postura. Um vomitou, sem dobrar as costas. O vômito escorreu-lhe no peito. Outro virou a face e vomitou também, sujando o ombro. Como resistir ao horror de testemunhar, durante horas, cena tão abjeta? Nem ao menos a brevidade foi-lhe permitida, como o são tantas pestilências que não passam de vislumbre ou golpe de olhos, persistindo na mente como vago recordar de certo terror. Por tanto tempo tê-la ali, ao lado, e ser obrigado a aceitá-la como o bastião de um novo real, a cada instante convencer-se de sua presença, de sua urgência, e perceber que sua duração transcende o choque. Amedronta-se não tanto com a cena mas com a sua lenta assimilação, e o corpo aclimata-se e acostuma-se com o odor metálico e o gordo sangue sobre o piso, com o úmido mastigar da Madame e suas mãos mecânicas, repletas da carne de um semelhante. E sutil sob o imenso silêncio podia-se perceber, embora indistinto em meio ao delírio, debaixo do piso, o levante de titubeantes golpes metálicos como ponteiros de relógios neuróticos. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A Madame limpou a boca com o verso do lenço. Onde estão meus cães? Ninguém moveu-se. Até um homem chamado Eugéne latir fino. Outros seguiram. Um deles ajoelhou-se e gatinhou ao redor da Madame. Seus joelhos patinando no sangue. Outro pediu-lhe comida com a língua de fora e ofegante, as mãos acima em punho quebrado. A Madame lançava-lhes alguns ossos de Borrifato. Eles comiam, entre vômitos. A Madame tossiu e com uma das mãos colheu de dentro da boca algumas pepitas de ouro, que jogou aos seus cães. E apontou ao penico. À ela levaram-no. Com ele sob a face, vomitou ela também. Mas de sua glote só saíam pepitas de ouro e alguns ossos menores, numa torrente logo preenchendo o penico e transbordando ao piso de terra cozida no hálito quente dos homens de barro, tempos atrás. Um dos cortesãos remove o penico. A Madame retira-se do aposento. Todos lançados ao chão na violenta peleja pelas pepitas untadas em vômito e sangue, todos menos uma. A jovem valet ajoelha-se. E recolhe um dos ossos de Borrifato. 


VI


Naquela noite, a valet não queria dormir. Revirava o osso em seus dedos. Qual parte de Borrifato seria? Estaria aqui conservada a sua saudade, o seu remorso? Era liso e bicudo, e quando o sono formigava-lhe as pálpebras, testava-o contra a carne macia dos dedos. Para acordar. Ao longo da noite repara o volume crescente dos estalos e batidas metálicas no subsolo, como o lento e caótico desempenho das entranhas da casa, digerindo algo. Abriu a porta do quarto e de quatro foi tateando, na palma das mãos, o ressoar dos ruídos. Espantou-a quão fácil foi encontrar a entrada. No centro da sala principal há um imenso candelabro de vidro com detalhes em baixo relevo, que pulsava os seus cristais ao compasso dos estalos. A valet puxou o tapete persa. Um alçapão. Levantou o seu tampo e desceu as escadas. No declive do túnel afogou-se na enxurrada de sons metálicos, as superfícies aonde apoiava-se desmanchando em grãos e caroços de terra consoante ao palpitar sincopado de tal vertiginosa percussão. Eis que alcança a grande cripta, atordoada ante a magnitude daquele barulho. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; O pandemônio. Um enxame de coxas e braços e torsos lustrados de suor, nas peles nuas reflexos áureos de todos os golpes de luz das moedas ao redor, em pilhas imensas nas mesas, nas paredes, no chão. Aos poucos divisou, no mar de membros, corpos humanos. Pessoas em perpétua moção como inertes ferramentas, seus olhos foscos encovados nas faces ósseas, aquecidos em nada salvo a brasa quente de seu sangue, esta lava lenta onde amparam-se sob o gélido abraço do mundo. Suas palmas fartas do maior dos tesouros escorrendo-lhe os dedos nodosos, a barriga vazia e as costas em curva, gemendo nas moedas, lustrando-as em seu bafo, com maçaricos derretendo as pepitas e em martelos moldando-as, aniquilando-se na finura de uma borda, na exatidão de uma linha, alienados de si na histeria de seu delicado labor, seus punhos os alicerces de todo aquele império do requinte. E ao centro de tudo, no cerne de todo este tumulto, soberana levanta-se Madame Teluris. &#38;nbsp;

&#38;nbsp; &#38;nbsp; E abre a túnica. De dentro saem uma, duas, três, incontáveis pessoas, nuas de luvas verdes, que removem o tecido. Ao centro há um homem largo com uma pequena cadeira sobre a cabeça, apoiada nos ombros. Sentada ali, uma raquítica, tacanha criatura. É esta Teluris. Outras retiram-na de suas costas, e com o maior dos cuidados dão-lhe colo. Tão débil, mesmo um sopro é capaz de pulveriza-la. Removem a peruca de seus longos cabelos e pousam-na numa redoma de vidro, onde há um pequeno berço. Eis a Madame. No fio da morte, irrisória ante a violência de sua criação. Suas finas costelas de cristal e os membros robustos dos trabalhadores, sua pele fria e as infinitas forjas ao redor derretendo os dentes da terra, ela recolhida com os punhos finos sobre os seios, os beiços largos e secos dos coitados ao redor, desnuda Madame, como desnudo está o seu palácio. E percebe agora a valet: esteve sempre à vista, no austero semblante de Teluris. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Abriu-se uma porta e um homem pousou, defronte à Madame, uma enorme travessa de carne. Com longos espetos de ouro colhia pedaços e, mediante uma pequena abertura na redoma de cristal, entregava-os à boca da Madame, que apática mastigava tudo que lhe era dado, para depois vomitar num buraco aos pés de seu berço. Sob ela, outro abria uma portinhola e recolhia baús inteiros de ouro, que eram levados aos operários para serem transformados em moedas. Imperfeitos em sua moção. Martelavam o metal sob a vigilância de outros tantos, açoitando-os com as longas luvas de veludo verde. Que também usaram para enlaçar o pescoço de um homem que colapsara com a testa na mesa. Arrastaram-no até outra porta, onde desapareceram. Agachada, segue-os a valet, pelos cantos e esquinas da fábrica. Atravessa a porta. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A amplitude. Estonteada notou o domo aberto do céu, a lua cheia descendo e a coroa do sol despontando no horizonte. Revoada de pássaros. Uma lufada de vento veio de cima flauteando as suas pernas, erguendo as bordas do vestido. A planície estendia-se. Estranhou a falta de simetria. Paisagem enferma, às coisas faltava o seu par, o seu reflexo. Ao longe longos vultos nos vincos do relevo e formosas copas de árvores. E inúmeras torres, altas sobre a crista do bosque. Água espumosa gorgolejando na corrente de um rio em cujos cálidos vapores despertava um grupo de humanos, gordos e nus. As ancas oscilando sob o peso de suas carnes caídas, as palmas nas margens e só os lábios na água. Muitos dormiam, dispersos, com as costas nos troncos, mesmo com as fibras da primeira luz sobre a testa. Outros ainda entregavam-se ao livre jogo de carícias na relva macia, sob a tênue sombra de altos tonéis de ferro, cuspindo grãos em longos cestos onde outros tantos foram comer. As mãos em concha e os olhos atentos à distância, talvez nos passos vacilantes dos luva-verde, que enfim largaram o operário num afloramento de pedras perto dali. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; O dia escoava. A valet cambiando a atenção entre os hábitos dos selvagens e o doce aroma dos ramos de hortelã onde optou por esconder-se. Viu quantas vezes os luva-verde arremetiam contra eles, e sob tímidas e precárias revoltas raptavam-nos um a um, para levar a uma tenda de metal anexada ao palácio, de onde sai um trilho elétrico carregando carcaças esguias, desprovidas de órgãos. Um estabanado tropeçando numa raiz. Um velho de bengala. Uma mãe com o filho balofo de boca aberta em seu seio. E depois os golpes abafados das lâminas na tenda, e o odor metálico escoando em seus canos. A tudo isto ela assistiu, inerte sob o disfarce das herbáceas. Chovia agora, espesso aguaceiro desabando sobre ela e o peso de seu cabelo colado à testa quase como um sonho. E quando o manto da noite sobre tudo estendeu o seu sigilo, enfim levantei. Removi as roupas de cortesã. O colete de veludo azul, o vestido de linho, os anéis de ouro, as meias de algodão, os sapatos de fivela dourada. Mas mantive o osso pontudo de meu amigo Borrifato que, alojado entre os dedos, levei comigo quando fui ao bosque. 


Mas permita-se aproveitar, tu também, esta bonita noite. E veja, ao centro de toda a pompa e toda a glória, a Madame em sua divina túnica conforme dita a etiqueta, alegre na fartura de infinitos braços, de eternos tesouros na boca saturada de gim, e vinho, e absinto, e rum, e vodka, primorosas alquimias alcólicas correndo o veludo das goelas dos convivas e donzelas de seu impecável palácio, que não cessam em elogiar a tua face mais velha que o mundo, mãe primeva da cobiça e do prazer, insaciável dona mastigando doces e pessoas, árvores e montanhas, engolirás o mundo inteiro pois é a própria filha de Midas, em sua barriga toda a carne vira ouro, e no abraço de sua simétrica bile todos nós seremos, enfim, irmãos e irmãs. 




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		<title>Vignettes</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/Vignettes</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:11 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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	VIGNETTES
	Em 1846 o matemático Le Verrier estranhou a órbita de Urano. Supôs o empuxo de outro planeta oculto atrás. Dias depois confirmou-se sua existência. O primeiro planeta descoberto por previsão matemática, algoritmo antes de ponto no céu. Seu primeiro nome foi Janos, o Deus dos começos. Pois agora era ele o portal a um cosmos invisível. Mas sua cor azul se impôs e optou-se por Netuno, o Deus dos mares. A solidão de Netuno é ser o único planeta do sistema solar que o olho nu jamais verá. Em calmo oblívio ele flutua. Sua solidão é também o sentimento daqueles que, ao não o verem, sabem-se pequenos. Naquela noite Le Verrier sonhou-se correndo o sistema solar e nas margens de Netuno contemplou a vastidão insondável do cosmos aberto. Mas virou-se e viu o planeta Terra e ali entendeu o poder das coisas pequenas.&#38;nbsp; &#38;nbsp;









•Após incontáveis dias de caminhada o viajante adentrou-lhe a sombra. Mais alguns dias e enfim a avistou. Em anéis concêntricos ela ascendia, suspensa em mais arcos do que era possível contar. O viajante estranhou-lhe a forma. Era circular. Quando criança mostraram-lhe uma imagem da Torre retangular, à qual acostumou-se. Depois veio a entender. Os que sobem a Torre dão-lhe voltas pois também em seus espíritos a moção é de subida ao infinito e de queda ao abismo para ao fim a mente retornar ao início, transformada. A alma é um círculo.
•E fui eu feito um fantasma assombrar o colégio de minha infância, suas grades cuja graxa senti em meus dedos instante antes de tocar a pele, seu piso emborrachado verdeluz como o brilho suave de minha sonolência escolar, sua sala de elevadores toda recoberta de grossos azulejos rugosos, sua igreja de tendências modernas com o teto em declives regulares e o padre a entoar cânticos que os pais já nem fingem escutar, todos eles como os pais que eu conheci anos atrás, o mesmo enfermo odor, os mesmos olhos vítreos, as mesmas pinturas ilustrando a via crucis com seus personagens de cabeças lisas como bolas de bilhar, escorridas de tudo o que compõe o rosto humano salvo as sombras nas bordas para dar volume e peso, as mesmas trevas mastigando as orlas, corroendo as margens para depois de servidas descartarem o resto, tudo como antes exceto sucintas mudanças pois é delicado e detalhista o demiurgo deste mundo, ele o maior amante do gaguejo, beato do eco, compositor das mais belas e austeras, invencíveis procissões em sua teimosa recorrência, e que seja então duas vezes louvado pois tudo o que foi decerto será, e será, e será com senão uma única anomalia: eu já não sou, estou justo aqui buscando o que perdi, o que já não resiste em mim, o que a marcha dos momentos digeriu e defecou nalgum ponto de minha jornada. Ai, cidade minha. Antes eu não sabia contemplar-te. Mas agora sinto-te, enfim. Sobretudo no encanto das coisas antigas vistas sob novos olhos, meus olhos encharcados de outras terras que agora reparam virginais o que antes eu não via pois sempre comigo, oculto sob o espectro da intimidade. Como o veludo da ventania austral e o verde úmido das folhagens, a neblina oceânica polvilhando de cinza as areias das praias e os sopros das orquídeas tumescendo as narinas, os ornatos de natal atrás das janelas das salas de estar, o homem nu que pinta a parede de branco, a matrona que tosse com o neto no colo, os amantes — a mulher com a saia na cintura e o homem de mochila olhando-me de lado — com as costas na viga de concreto nos jardins de Alah, as asas dos pássaros sobrevoando a coroa dos arranha-céus, garrafas de vinho vazias na relva, no pilotis o venerável ancião apoiado na bengala de bambu pingando os pés sobre o chão encerado, a gorda depilando os sovacos no passageiro do carro estacionado de porta aberta, o som cristálico do músico dedilhando a sua lira entre as mesas à meia-luz de velas, famílias e amigos de faces trêmulas como lâmpadas com dentes papeando em frases cortadas pelo mascar da comida. E tudo isto sou eu, também. Não excluo serem todos Tomas, eu o pai e a mãe e o padre, eu as figuras de faces lisas e a tosse da velha, a saia da mulher e a cueca do rapaz, as penas nos prédios e o arco da bengala e os dentes de vidro e a comida moída, tudo eu menos aquele que anda, e escreve, e anda, e escreve, tantas vezes quantas quis o demiurgo, este eu não sou, pois como pode alguém ver com os mesmos olhos que fitam-no de volta?
•Os notáveis construtores de Babel atingiram a planície de Sinar e ajoelharam ao chão com as faces ao céu e algo neles lhes pediu que pegassem um punhado de terra. Moldaram-na em tijolos e depois os assaram. Através de uma Torre tensionavam fazer o chão tocar o céu pois dentro de si sentiam também a existência de algo que tocava ambos o pó e o paraíso. Eles não o sabiam mas suas naturezas ansiavam a síntese. Apenas no toque entre elas é possível ao humano medir sua existência então a altura da Torre haveria de dar a real escala de seu espírito. Mas conforme a Torre crescia os construtores apaixonavam-se não pelo céu mas pelo mundo abaixo e então decidiu-se. A Torre seria construída para dominar toda a natureza sob a presença de uma única silhueta. Julgaram que uma vez acima seria possível contornar sob os olhos todas as paisagens do mundo, desvendando os mistérios da natureza. Uma Torre do Entendimento. E certo dia foram todos ao terraço e abaixo viam o mundo tão extenso e suas coisas tão pequenas que tudo lhes fugia da vista. Descobriram a existência do horizonte e com ele entenderam sua própria pequenez cognitiva, sua própria fraqueza sensitiva. Tomados de vergonha perceberam que lhes foi furtada até a fala pois já não entendiam-se. Em pouco tempo as estruturas falhavam e os mortais sabiam da inevitável queda. Temeram o fim mas no cerne do medo havia algo a mais. No colapso de sua húbris algo neles despertou. Não havia o que dominar mas apenas amplitude e foi ela quem alargou seus pensamentos. Em seu íntimo agora viam a mesma vastidão que na natureza assustava. Estavam no limite de suas potências, na fundura máxima de seus espíritos onde tudo é inexprimível pois largo demais para palavras. A falta da fala veio a servir bem então. Caíam, mas ao menos agora conheciam-se. Apenas os limitados acessam o Sublime pois só eles superam o contorno de sua potência, ao invés do Deus que, potência pura, está fadado a perseguir-se. Talvez tenha sido esse o motivo. Ao ver crescer a Torre o Deus contemplou uma partícula de poeira e entendeu. Desconhecia a dimensão de um instante. Tomado de cólera fragmentou as línguas.
•
Thomas Chatterton suicidou-se em seu pequeno sótão. Numa vida sufocada em banalidades nunca descobriu-se mas veio a conhecer a boca da letargia que o engoliu. No momento da morte sua vista falhava. Via tudo incompleto e nas lacunas ele podia expandir-se oceânico. Sonhou ser um ilustre imperador que sob o jugo de seu cetro unificou todos os povos do mundo. A titânica extensão de seu império lhe escapava o entendimento. E súbito seus olhos encurtaram nas paredes do quarto, o frágil corpo trêmulo e a alma escorrendo para outro lugar. Em morte descobriu jamais ter vivido, toda a sua vida um sonho sob portas fechadas. Alienado de si, quase não soube qual dos suspiros foi o último. Morrer foi como acordar.
 •
O abade queria mais luz. No hálito áureo do Deus eu hei de perder-me, dizia. Para sustentar o sopro divino ele e seus construtores ergueram um altíssimo templo todo suspenso em inovadora estrutura de geometria divina. Como se o próprio Deus empunhando um compasso o tivesse feito. Tudo para escorrer o peso da luz. Ou seria, pontuou o mestre pedreiro, a luz acima que levanta a estrutura? E mesmo após erigido o templo, o abade nunca teve a certeza de sentir na luz o sabor divino.
 •
Em dado tempo veio a apreciar a máquina. As voltas lustrosas em seus membros de ferro a tudo indiferentes salvo a perpétua moção. Mas jamais chegou a saber o que era a pequena peça que tantas vezes, na fábrica, produziu. E nas lojas e feiras contemplava toda a abundância de coisas e não sabia qual delas ele próprio havia feito. Tantos estímulos e tudo parecia remoto, assim como remotas eram as pessoas ao redor, assim como remoto era o seu semblante no reflexo da vitrine. À noite sonhou uma exposição onde os objetos admiravam e manuseavam as pessoas das estantes, todas similares pois haviam-nas produzido em série nas fábricas. Ao acordar, conseguiu extrair um sentido divino disto tudo. Pois se somos todos partes esquecidas de seu papel ou propósito no esquema geral do universo mas que devem ainda assim encontrar sentido na lasca de vida que nos é dada, também pode haver um sentido a ser contemplado nas engrenagens às quais ele dedicava todos os seus dias, ainda que — ou por causa de — o papel por elas desempenhado no desenho do objeto final fosse a ele sempre interdito.













•
O grupo liderado por Horace-Bénédict de Saussure escalou Mont Blanc em 1760. No regresso em meio a uma inesgotável nevasca alguns dos alpinistas viram em sonho os domos de uma arquitetura ou morada celeste de algum tipo. Em seus templos de vidro palpitavam corações de carne macia e doce. Os alpinistas acordaram sentindo-se ocos por detrás das costelas. Convenceram-se de sua existência. Não mais foram vistos.





•
Ao pisar fora de casa ele primeiro sentiu no tambor da pele a atmosfera latejante e suas têmporas tardaram para se adaptar aos reluzentes corredores da cidade ela toda de mármore branco à frente uma Igreja Gótica cujos ornatos na fachada exibiam uma cena tão sublime que ele foi incapaz de interpretar e sendo assim decidiu seguir em frente sozinho sob o toldo de uma noite sem lua pois ele levantava a cabeça mas suas retinas não encontravam o nobre astro e não à toa também sentiu a falta da estrela do norte e costuma-se dizer que a falta de tal estrela denota a inexistência de um caminho e não é que naquele mesmo dia à tarde ele havia rezado nas cinzas de Saramago e no sussurro das folhas da árvore que delas brotara ele foi incapaz de captar conselho algum que fosse mas mesmo em meio à tais memórias incômodas optou por seguir seu caminho nessa noite sem lua e com astros de arcos confusos e passou ao lado de pessoas de terras longínquas conversando em línguas estranhas com os dentes vermelhos de belo vinho todos eles estúpidos ciclopes prestes a perder Ulisses mas não haviam cavernas pois as esquadrias das construções iluminavam-se mas ainda menos que um imenso pinheiro de ferro onde ele hesitou em entrar pois brilhava de forma indecente atraindo a todos como moscas de fazenda e seguiu até comprar uma cerveja e sentar-se recolhido ao canto de um bar observando toda a gente como certa vez fez Van Gogh em seu Terrasse du café le soir o valoroso romântico solitário artista visando interpretar o inefável de uma existência fugidia pintando em talhos frescos de tinta pois tudo está sempre em movimento a vida dinâmica nos impede de descansar e não há nada senão a reles caça ao retrato do que nunca cessa nada senão a absurda busca pelo instante que está sempre agonizando pois o tempo corre e os planetas correm e as coisas crescem e não há respiro sob o céu nem acima dele pois não há nada no universo senão indiferença então por que pintar imóvel para retratar o fugidio ou o finito para expressar o infinito pois são assim os esforços humanos todos absurdos como é a natureza que nos gerou e cuja placenta é repleta de farpas e na lasca esquerda de seu olhar ele viu um velho com sinusite e barba similar à sua e grossas sobrancelhas como as suas e o sujeito cantarolava a valsa num timbre não de todo estranho e ele notou que as pessoas usavam máscaras e sentiu a carne de sua face de uma falsidade grotesca e virou a cevada e fugiu à ribeira onde o hálito da água era de um frio que ele ainda não havia conseguido acostumar-se e não à toa o dorso do rio crispava em ondulações delirantes que o angustiaram e assim voltou os olhos ao piso onde viu a sombra rasa de seu corpo alongando-se à frente com a cabeça sendo decapitada pelas marés e logo notou ao percorrê-la que ela apontava um farol à distância no centro do eterno Tejo piscando sua tênue luz amarela piscando piscando como a frágil promessa das coisas que sequer damos nota até que algo singelo nos lembra de sua existência e são esses os momentos que cavam o fundo abismo da vida e no leito de meu coração surgiu um anseio insuperável de tocar o farol pois se tanto já andei nada me resta senão mais um passo a grande virtude de seguir em frente quando tudo ao redor é inviável e no seio da noite fria lancei-me à água sequer tirei a roupa e logo senti o peso de meus sapatos ao removê-los engoli água e a ágil correnteza arrastou-me para longe do farol e sob um fio de vida me vi em meio a enormes navios com cascos como torres que urravam e ali a força bruta do rijo deus do engenho e da indústria não me escapou tal é a índole da divindade de todas as ferramentas que possuem função explícita e portanto opõe-se ao inconstante espírito humano que queima nos pés dos peregrinos vagueantes e alcei minha cabeça acima e em meio à névoa celeste notei um avião correndo piscando piscando similar ao que onde eu mesmo havia estado na noite anterior e foi a coisa mais estranha pois lembro-me que havia no avião um menino também chamado Tomas também com o cabelo em corte asa-delta e olhos inquietos e um dente negro pois chocou-se no terceiro pilar à esquerda no pilotis da velha escola e tal menino sentou-se ao meu lado e não disse palavra por todo o vôo senão em dado momento ao mirar as nuvens e dizer E amanhã eu também me verei vendo todas as coisas informes cuja linguagem nenhum livro é capaz de captar foi um típico deja-vu pois algo em mim me fez lembrar da frase e a vinte mil léguas de altura enunciei com ele em simultâneo e eis que agora enquanto eu afogava-me entre goles d’agua eu de novo gaguejava as mesmas palavras e meus olhos inquietos de águia viam numa janela desse avião a face de um menino vendo a névoa e outra atrás piscando piscando ao além do alcance da mão que já pesava miserável sob a água enquanto todas as pessoas falavam coisas que piscavam em seus dentes reluzentes como mármores brancos e em meio à elas na terra como um solícito camarada estava o farol e já não mais piscava. 




•

Tudo isto eu pensava quando o juízo escorreu de meus tímpanos e perdeu-se no vinco do piso entre duas placas de mármore. Deitei-me no chão de ouvido colado ao rejunte na esperança que ele voltasse à mim, leviana sensatez. Meus olhos corriam o quarto e, sentado numa penteadeira etíope ante um vistoso espelho oblongo, vi um homem de costas que penteava-se. Acima do móvel e recolhido na aresta das paredes, notei o vulto de outro corpo. Em longas pernas de alabastro e tronco teso e polido arqueava os braços, excitava as presas. Uma imensa aranha branca, à espera. E então uma cobra colossal, negra, que arremetia contra o inseto. Golpeavam-se pois o réptil queria contorná-la em círculo mas quando prestes a morder o próprio rabo para selar a captura a outra rápido picava-lhe a carne macia, rompendo o amplo laço e enfim correndo as paredes, o réptil atrás. E o homem a pentear-se. Acima costurando toda a cúpula, atada em todas as sobras e ornatos havia uma teia de incontáveis nós, sua trama luzindo na minúcia de seus fios e na mecânica de seu pêndulo, insondável, caótica em sua revoluta e alvoroço. Ali a cobra prendeu-se. Atônito contemplei a sua negra anatomia içada em tão delicada estrutura, seus olhos sem pálpebras correndo a trama em busca de um sentido, de uma saída. Na aliança de seus nós também eu tentava apreender a tua lógica. Mas submisso pela proeza de tal sistema, meus olhos senão testemunharam o virtuoso inseto contrair o abdômen num golpe à carne da cobra, ao fim fria, flácida enquanto era engolida em elegante lentidão. E o homem ainda penteava-se, mas já não haviam cabelos. Raspava na ponta do pente a sua cabeça nua, cavando-a em linhas de sangue. Levantei-me e fui à ele. Às suas costas vi uma face no amplo espelho, a minha face monumental, fitando-se. Pelas fendas do pente notei algo pulsando. Com as mãos rompi a epiderme e fendi o crânio. Incontáveis ovos de aranha. Deles extraí um colar celta de esmeraldas, uma cômoda de pedra-pome, um cinto de bronze, toda a minha coleção derramando de meus braços sobre o piso, deslizando na direção da penumbra, para sempre perdida nos recessos de meus salões. Desperto enfim. Agora, temo, há uma teia em minha mente. 






 •
E você entra em seu quarto talvez um tanto inoportuno pois ali jaz o grande homem, teu avô com as pernas para cima sendo manobradas pelas mãos da médica, e você vai ao seu lado e primeiro assusta-se com sua pele gomosa e seus pálidos lábios, os olhos encovados e a vida esvaindo-se na folga do hálito, tão rápido, tão cansado. E a morte aninhada em seu peito. Mas você quer beijá-lo e quando seus lábios tocam-lhe a fronte sente mais uma vez aquele perfume que guarda tanto de tua infância, as tardes douradas e o doce ócio e o barulho dos insetos, o murmúrio dos talheres e o rompante das risadas, tudo ali conservado nas rugas do velho que teus lábios tentam preencher. E tu seguras-lhe a branda mão e lembra de momentos, principia frases na esperança de acender algum tendão neuronal e fala demasiados Você lembra?, Você lembra?, e de fato escuta, nos fiapos daquela débil voz, certas longínquas trovejadas serrando o horizonte do oblívio, palavras-chave que confirmam, por detrás de toda a névoa ele entrevê, e se lembra. Mas também sente, no assentar da poeira sobre a cômoda, o desinteresse, o desapego dele pelas ocorrências da vida, e percebe que isto tudo importa apenas para ti, e dali a poucos minutos ele esquecerá de sua visita, e de suas palavras, e dos lumes acesos nos nódulos da mente, e o teu anseio de ver algo ali realizar-se é vão, e o vínculo genuíno que tencionava construir revelou-se uma conversa sufocada pelo peso do silêncio, inútil, talvez seja melhor deixá-lo só com suas feridas e seus vícios, com seu sossego e tumulto nesta jornada para sempre distante daqueles que ainda guardam distância dos dias últimos. E horas depois teu pai vai ter contigo e você sente a agonia na lacuna de suas falas, nas estrias de seus olhos, e na falta de ter o que dizer, nada diz, e de novo perdeu-se a ponte e no palco do instante não foste capaz de entreter nem discursar, esteve abaixo do que a vida lhe pediu, mais uma vez entendeu o teor momento tarde demais, viu-o de costas, e pensou que amanhã será melhor, e talvez seja, mas esta noite o pai lamentará sem o afago do filho. 











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		<title>Crítica</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/Critica</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:12 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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Crítica[obra escrita sob o âmbito do evento CINEJANTAR 002, na Fábrica Braço de Prata, Lisboa]

2001: Uma Odisséia no Espaço 
por Stanley Kubrick


Expressão máxima das pretensões artísticas do sci-fi no cinema, 2001: Uma Odisséia no Espaço revela-se como uma das obras que mais conjugaram os temas ditos universais com o regime cultural de nossa era. Feito por Kubrick no auge da guerra-fria, numa cultura já desiludida das maravilhas da tecnologia, o filme pondera o que resta à uma humanidade que apostou na Razão como veículo de um progresso técnico-científico infinito, mas que acabou por revelar justo a nossa finitude. Humilhados pelas nossas próprias pretensões, idiotizados pela nossa própria inteligência, amargamos não a Utopia mas o colapso — pois também a bomba atômica é filha da técnica.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; O filme acompanha os diversos encontros da humanidade com um objeto alienígena capaz de promover, precisamente, este tipo de progresso. Seu foco temporal é o ano de 2001 (símbolo de um futuro distante e início de nova era) numa sociedade tão envolvida em suas máquinas que tornou-se, ela própria, maquinal. Suas ferramentas deram-lhes o controle total do planeta, desnudando-o de toda a sua hostilidade. Mas se com elas moldaram o mundo, também é este o mundo que molda-os de volta. Acostumados a um cotidiano desprovido de conflitos, os humanos atrofiaram-se. Racionalidade pura, tornaram-se fragmentos de si. São frios, calculistas, utilitários — autômatos. A comodidade submergiu-os num culto ao conforto que apequenou-os. Incapazes de praticar as tarefas mais básicas sem o auxílio das máquinas, tornaram-se robóticos em suas ações, como espelhos turvos de suas próprias criaturas — não à toa HAL 9000 é a figura mais complexa do enredo. Este mundo tedioso (pois desprovido de espanto) talvez tenha sido a razão de lançarem-se ao espaço, mas se mostram incapazes também de contemplar o espetáculo cósmico ao seu redor: vêem-no apenas como vácuo. Aos espectadores do filme resta senão a sonolenta dança das naves sob a valsa de Strauss. Mas talvez ainda haja redenção e Sublime transcendência aos humanos esquecidos de sua natureza, caso consigam superar o domínio das máquinas e acionar em si o núcleo daquilo que à elas sempre faltará: um espírito. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A escolha por esta obra se dá também pelo seu caráter geminiano. É apenas metade de uma colaboração do diretor com Arthur C. Clarke, que escreveu um livro homônimo. É este em preciso o nexo artístico que gostaríamos de promover, em parceria com a Livraria da Fábrica: as relações entre a literatura e o cinema, os gêneros narrativos por excelência. Mas enquanto o cinema fornece-nos imagens prontas e preocupa-se sobretudo com a externalidade dos fatos objetivos, a literatura habita também o íntimo humano, seus fatos mentais e subjetivos, e convoca-nos a compor as nossas próprias imagens. O cinema torna-se assim a potência da passividade partilhada, e a literatura, da atividade solitária. Neste sentido, pode-se ver 2001 como um filme-filme, promotor da externalidade pura não apenas em sua forma artística mas também no temperamento de seus personagens e no desenvolver de suas temáticas — ou não seriam as máquinas aqueles entes desprovidos de um íntimo?











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		<title>As Vidas dos Filósofos</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/As-Vidas-dos-Filosofos</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:13 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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As vidas dos filósofos
1. De Tales, dizem ter sido avesso às coisas do mundo. Não lembrava-se do aspecto de sua própria casa — encontrava-a mediante o cálculo das constelações. Certa noite caminhava contemplando as estrelas e acabou por cair no fundo de um poço. As meninas e os amigos riam-se dele. Mas alheio à débil película daquele escárnio, de dentro da terra percebeu que as bordas do poço eram o suporte perfeito para contemplar o cosmos. A firmeza da terra explicitava o andar dos astros. E da lama do mundo voou pelos céus. 


2. Quando penso em Heráclito, vejo-o no silêncio da madrugada de uma noite sem lua, quando estão todos a dormir, caminhando nu pelos bosques sob a tempestade, fascinado pelo enigma e fluidez das coisas, todo um mundo em cada relance, e discutindo com os deuses, energizado nos rompantes jactantes do relâmpago, que governa o universo. 


3. E quando eu vi que tudo, desde a cenoura em minha boca à face titânica de minha mãe ao primeiro abrir os olhos, desde o friso da espada à nostalgia que no sereno das noites me assalta, todo o conhecido e também o desconhecido é composto de minúsculas partículas chamadas átomos, elas próprias um mistério insondável, fiz como Demócrito, em cuja larga bocarra cabia sempre mais sorrisos, e matava-se de rir em espasmos sob a túnica e de chinelos caindo dos pés, pois o absurdo da existência é, de fato, hilariante.
4. 










Eis a mais oculta das verdades: Sócrates não morreu. Quem bebeu a cicuta em seu lugar foi Platão, o mais nobre discípulo. O fez para que Sócrates pudesse, agora sob codinome Platão, escrever enfim os seus diálogos. Em sua coragem o aluno venceu a morte. Era este o grânulo que faltava à filosofia do mestre, pois Platão era agora pura forma no mundo das idéias, sussurrando-lhe do além tão belos e perfeitos saberes. Fica a questão: quantos nomes cabem em um homem?5. Winckelmann não tinha nervos na face. Quando nasceu, não chorou. Em olhos pétreos contemplava a sua mãe. Desde cedo aprendeu a expressar emoções sob o verniz da apatia, como a lisa película de sonolento oceano por onde trafegam coisas anônimas. E assim entendeu conseguir, mediante a placidez, revelar afetos em contraste, contendo sob o aparente sossego a potência de todas as faces do mundo. Superara a fisiologia ao revelar-nos que captamos o ódio, o amor, a angústia, o medo no outro não mediante o arco dos lábios ou a altura das pálpebras, e sim devido a uma telepatia típica da face. Mas era avesso aos rostos dos outros, sempre excessivos em suas sensações. Encontrou enfim seus pares na calma solenidade, na grandiosa serenidade das faces de mármore que os antigos esculpiram. Com elas viveu até o fim de seus quietos dias.




6. Difícil esquecer a noite em que sentei-me ao lado de um jovem Hegel, à convite da Baronesa de X, em seu banquete de ano novo. Primeiro serviram-nos uma tigela de melões em cubo com um prato raso de presuntos ibéricos. O jovem ao meu lado, alheio às normas gastronômicas, comeu primeiro o melão, depois o presunto, de novo o melão, depois o presunto, agitando-se em derrisória, delirante espiral, suas sucessivas, vorazes tentativas de convergir ambos os sabores, cujas notas no paladar pareciam sugerir algum tipo de síntese, e eu, tonto com tudo aquilo, tomei-lhe o pulso e ofereci um dos presuntos envoltos no melão, ao que o jovem, enquanto mastigava, agradeceu-me com uma lágrima e o sussurro úmido de Absoluto.










7. Sou eu também o cavalo que, em Turim, Nietzsche abraçou. É errada a exegese geral — o filósofo não era louco antes de conhecer-me. Foi, sadio, salvar-me da chibata. E eu em troca fiz como Xantos, mediúnico corcel de Aquiles, e entreguei-lhe a tenebrosa verdade. Salomé não te ama, eu disse, minha língua batendo na embocadura. Tolice confiar a sanidade ao amor fugidio das jovens donzelas, pensei ao testemunhar o homem corrido em lágrimas de joelhos em minha bosta. E, no Eterno Retorno de nossos reencontros, eu, tão avesso ao tautológico, testo sempre novas verdades. Já disse-lhe que a pena da irmã profanará a sua filosofia, que o seu Übermensch usará, ridículo, cuecas vermelhas, e que ele morrerá sozinho entre as tosses dos tuberculosos. Ao cambiar de horrores, exerço o maior dos males: o refutar de sua doutrina. Pois se acredita ele que nas vidas futuras tudo teima em repetir-se, como pode este equino trazer sempre novos portentos? Mas uma coisa ao menos mantém-se: enlouquece toda vez. Talvez por fraqueza, talvez por convicção filosófica. E fico eu a tentar distinguir todos os distintos impulsos que acabam por criar os mesmos gestos. Chego a pensar que a única maneira de conservar algo é, de fato, alterando-o.&#38;nbsp;








8. Sartre encontrou a filosofia num coquetel de damasco. Bebeu-a e ao sentir o líquido descer nas paredes do espírito pensou poder expandir a sabedoria do néctar à toda a condição humana. Mas o mundo era maior que as bordas de um drink e seu olho extraviou-se e sua garganta foi incapaz de tragar tão difíceis dilemas morais e, sem obter respostas a perguntas impossíveis, voltou-se à literatura, onde a dúvida não é incômodo mas monarca absoluta. 





9. Derrida — e isto é conhecido nas curvas mais centrais da espiral social — certa vez entrou num elevador com espelhos faceados e perdeu-se na eterna sucessão de todos os seus reflexos. Não se sabe qual dos reflexos enfim saiu do elevador quando a porta se abriu. Pouco importa também. 

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		<title>No Eterno Instante</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/No-Eterno-Instante</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:14 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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No Eterno Instante:
 Estudos do Sublime

						[Dissertação criada por Tomas Camillis 
e orientada por João Masao Kamita 
sob o âmbito do curso de Mestrado 
da Pontifícia Universidade Católica.]
•Consuma o meu coração; enfermo em desejoE atado a decadente animalEle não sabe o que é; e reúna-meNo artifício da eternidade.

						Velejando a BizâncioW. B. YeatsSailing to Byzantium

						Consume my heart away; sick with desireAnd fastened to a dying animalIt knows not what it is; and gather meInto the artifice of eternity.
Tudo o que há necessita de outro para perceber-se. 
A 
natureza antes una não conhecia-se então rompeu seu corpo em criaturas que se testemunham. O medo instala quando o vazio entre as criaturas tensiona e o humano sente-se só e ameaçado. E então o humano constrói casas. E o que era amparo tornou-se também expressão e o humano aprendeu a fazer templos para tocar o Criador. Mas nada
havia ali além da escala de seu próprio coração. Pela obra a criatura não ascendeu mas enfim conheceu o que antes guardava oculto sob a pele. Buscava superar
a solidão mas foi nela que encontrou-se.Ao humano. Dos fracassos, o mais belo.

•

RESUMO

						A consciência humana percorre a existência e logo percebe-se frágil, pois
incapaz de extrair sentido de um universo que nega o entendimento. Em busca de
amparo ela então volta-se a si mas ali vê apenas fluxos fugidios que lhe escapam.
O coração de tudo lhe é desconhecido. Como pode o humano situar-se em meio ao
inefável? Da angústia de ambos os desamparos surge a ânsia de transcender. Não
à toa há quem nos pense como criatura conflitante entre duas naturezas: a tensão
entre carne e espírito, entre mão e mente. É possível desviar-se do ascetismo e
pela Estética entender-nos não em oposição mas em dialética, quem sabe, passível
de síntese. A concretude como caminho ao etéreo. E assim o humano expressa-se
na arte, campo de categorias estéticas. A do Sublime canaliza tal estado de tensão
e pode ser vista como a tentativa de expressar o inexprimível – há em suas obras
um senso de grandeza, reverência, deslumbre, medo, coragem. Nas enormes ar-
quiteturas o humano busca o além mas o além está fora de alcance pois se a maté-
ria permite a jornada ela também a limita. O que encontra então? O desejo de expressar o revela a real medida de suas capacidades. Ele assim contorna-se, conhece-se, ampara-se.

						
Estudo a angústia do humano em conflito e suas tentativas arquitetônicas
de atingir o Sublime. A Torre de Babel, as catedrais Góticas, a revolução cosmo-
lógica, o Romantismo, o indivíduo coibido pela indústria, a regeneração estética, a
sociedade do desempenho, o fim da transcendência, as montanhas e seus templos
de cristal contemplação. A busca por algo a mais e nossa improvável redenção.

						
Palavras-Chave: Sublime; Estética; Expressão; Transcendência; Imanência.

	
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		<title>A Solidão de Netuno</title>
				
		<link>https://tomascamillis.com/A-Solidao-de-Netuno</link>

		<pubDate>Tue, 23 Dec 2025 00:21:14 +0000</pubDate>

		<dc:creator>tomascamillis principal </dc:creator>

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A Solidão de Netuno














Pois a arquitetura é dentre todas as artes a que mais ousadamente busca reproduzir em seu ritmo a ordem do universo, que os antigos chamavam de cosmos, isto é, ornado, enquanto parece um grande animal sobre o qual refulge a perfeição e a proporção de todos os seus membros. E louvado seja o Nosso Criador que, como diz Agostinho, estabeleceu todas as coisas em número, peso e medida. 

Umberto Eco1


Ser imortal é insignificante; exceto o homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte. 

Jorge Luis Borges2


E um astrônomo será levado pelas ruas e será vestido como um animal, e se levará seus cálculos com ele, rasgados em pedaços, como um feixe de feno.

Soren Kierkegaard3 
•
Em 1846 o matemático Le Verrier estranhou a órbita de Urano. Supôs o empuxo de outro planeta oculto atrás. Dias depois confirmou-se sua existência. O primeiro planeta descoberto por previsão matemática. Algoritmo ao invés de ponto no céu. Seu primeiro nome foi Janos, o Deus dos começos. Pois agora era ele o portal a um cosmos invisível. Mas sua cor azul se impôs e optou-se por Netuno, o Deus dos mares. A solidão de Netuno é ser o único planeta do sistema solar que o olho nu jamais verá. Em calmo oblívio ele flutua. Sua solidão é também o sentimento daqueles que, ao não o verem, sabem-se pequenos. Naquela noite Le Verrier sonhou-se correndo o sistema solar e nas margens de Netuno contemplou a vastidão insondável do cosmos aberto. Mas virou-se e viu o planeta Terra e ali entendeu o poder das coisas pequenas.&#38;nbsp; &#38;nbsp;


•


Desde sempre foi assim. Na aurora da espécie o humano já apoiava-se em ambos os pés e seu penoso crânio dobrava a nuca. Os olhos inebriados na vastidão cósmica não viam o todo salvo inúmeros pingos luzidios e a penumbra atrás. Sua cegueira ampliava-lhe o conforto. Incapaz de notar a imensidão inóspita, entretinha cosmologias de restrição. Mas há algo alienígena no tecido de nossos corações que anseia saber. Não contento com o conforto, buscou o além. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Nos zigurates da Babilônia matemáticos marcavam em tabletes de argila a geometria dos eclipses solares e lunares e o arco de Vênus. Depois Pitágoras e seus teoremas compunham um cosmos cujo centro era um fogo essencial, ao redor do qual girávamos. Contornando tudo, ao longe, o sol. Nesse cosmos contido Platão viu o trabalho de um demiurgo que impôs ordem matemática ao caos de outrora. As partes servem o todo e ao centro gira o planeta Terra, talvez para que o racional humano contemple o equilíbrio celeste e dele retire lições de conduta. Tornamo-nos todos estudantes dos hábitos esféricos, segundo Platão a mais perfeita das formas. O corpo imitava o cosmos para conquistar um perfeito espírito. Ubíquo no Medievo, o modelo Aristotélico depois propunha um universo composto de camadas esféricas onde céu e terra respondem a diferentes leis, sendo assim separados. As criaturas sublunares como nós vivem contingentes na crosta planetária, corroendo-se na entropia. Tudo o que é eterno e necessário guarda-se acima da lua, no primeiro céu, Ouranos. E embora nos soubéssemos finitos, toda a criação mantinha-se ao nosso redor. Nosso amparado planeta gozava a honra de ser o centro axial desse finito e harmônico cosmos. No século terceiro antes de Cristo, Euclides compôs a geometria que viria a ser usada por milênios também na arquitetura e Aristarco de Samos descobriu o imenso sol ao centro do cosmos. Mais tarde Eratóstenes de Cirene calcula a circunferência da Terra, dando escala à nossa pequenez. O velho curvado na poeira do mundo medindo a sombra de um graveto e comparando-a à sombra dos templos de Alexandria para deduzir o tamanho de seu ínfimo planeta. Como ele, todos os outros conquistaram o êxtase e o terror da crescente escala cósmica ao prensar os olhos e medir padrões matemáticos nos pontos de luz remota na penumbra. E mais haveria de surgir da boca do infinito.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; No medievo as artes eximiam-se de copiar a criação ou de construir ídolos realistas. Optavam por apenas aludir ao Deus infinito mediante imagens simbólicas, pois hereges são os que ousam limitá-lo. Suas catedrais usavam-se de esquemas geométricos e semelhantes à Escolástica para alinharem-se de maneira abstrata à lógica da criação divina. Deus, o grande arquiteto, não raro manejava um compasso nas pinturas dos templos. Mas já é possível ver desenhos como o da santa mística Hildegard von Bingen, que numa visão entendeu o corpo humano como o centro da estrutura divina. E no século quatorze figuras em sua maioria anônimas escreviam tratados científicos, como Geoffrey Chaucer e seu Tratado sobre o Astrolábio. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Mas foi a Renascença o início do êxtase científico. Copérnico re-introduz de uma vez por todas o sol ao centro e mediante a geometria explica a moção planetária do sistema solar. Outros grandes avanços em medicina. Enquanto construía máquinas para melhor contemplar os astros acima, o humano também caía em si e à lâmina explorava os recessos do seu corpo aberto, espelhando entranhas e estrelas. Desde sempre equiparou-se o corpo humano, microcosmos, à Criação, macrocosmos, mas na Renascença há uma profusão de tais teorias. Desenhos como os de Agrippa von Nettesheim revelavam a figura humana encerrada em geometria de pentagramas certa vez também apreciados por Pitágoras, que via ali uma relação com o cosmos e a ordem divina. “O homem, a obra mais perfeita criada por Deus, possui uma estrutura física mais harmoniosa do que as outras criaturas, e contém em si todos os números, medidas, pesos, movimentos, elementos e todas as coisas, e é a mais sublime obra de arte”, escreve Agrippa, que também traçou relações entre o corpo humano e a arquitetura da Basílica.4 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Em seu Homem Vitruviano também Leonardo Da Vinci uniu o corpo ao cosmos. Seu umbigo o centro de uma operação que viu no humano a ponte entre as formas áureas do círculo e quadrado, pois de todas as criaturas seria a única dotada de elasticidade existencial. A fusão entre arte e ciência viu em Da Vinci seu mais célebre súdito. O científico artista analisava os fenômenos naturais e através da geometria ordenava-os na tela. Da ciência árabe os europeus adotaram a perspectiva. Em parâmetros matemáticos ensinaram a mente a ver profundidade num plano de projeção, agora o locus do intelecto. Antes Giotto já pintava o espaço como ente denso entre figuras, mas agora ele estruturava-se na matemática. A arte já não era alusão simbólica mas uma forma de contornar a matéria do mundo, agora o leito de um Deus imanente. O divino aqui. A Natureza objeto ao redor, analisável pela percepção e entendimento do sujeito. As paisagens pintadas focalizam toda sua potência no olho do espectador, o centro ausente da pintura. O Belo ganha contornos visuais e, em vistas imbuídas de qualidades objetivas e geométricas como harmonia, proporção e simetria, era aplicado à arte. Assim artistas como Leonardo, Michelangelo e Rafael corrigiam um mundo tantas vezes absurdo. A perspectiva renascentista não é espelho da realidade, mas seu perfume. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; À exemplo de desenhos como os de Agrippa e Da Vinci, arquitetos como Donato Bramante e depois Andrea Palladio buscavam na geometria de suas obras ascender o fortuito humano à perenidade da ordem cósmica. Via lógica silogística costuravam os costumes galáticos à vida terrena. Se há vínculos entre humano e cosmos, então é a arquitetura quem deve assumir o meio termo universal, amparando pessoas e deuses. Dos ideais do corpo perfeito à proporção coesa de volumes construídos à medição das elipses planetárias, a matemática haveria de alinhar o cosmos e o corpo humano, o Deus e seu filho. Christopher Wren, grande astrônomo e arquiteto inglês do século dezessete, escreve: “Figuras geométricas são naturalmente mais bonitas do que figuras irregulares”.5 Ao habitante de uma Villa Palladiana, resta aceitar o conselho de Platão e permear-se das formas perfeitas. Numa vida angelical seus hábitos aprenderão os segredos da “ordem harmoniosa”, fazendo de sua morada uma “analogia ao paraíso”, como o disse Colin Rowe. Ele continua: “as leis da proporção eram estabelecidas matematicamente e em todo o lugar difundidas…se tais números governavam os labores de Deus, considerava-se apropriado que os labores humanos fossem similarmente construídos”.6 Criava-se um mundo em pantomima onde imita-se os gestos do Criador. Assim a criatura há de ascender. Da carne ao divino.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Pela crença cartesiana numa causalidade mecânica onde se é possível prever os eventos naturais, a frágil criatura busca controlar o que em muito supera-lhe o tamanho. A espécie com o palato ainda perfumado de fruta proibida pretendia dimensionar a criação, quem sabe dominá-la, e assim tocar o Deus. Mas ao promover-se como a medida de todas as coisas, o humano fez apenas encolher o encanto do cosmos ao seu finito coração. Pois é evidente. Em tais diligências havia um desejo ilusório de amparar-se na segurança do controle pois já sentíamos o vulto do descontrole: passávamos por uma série de desilusões coletivas que apenas reforçavam nossa pequenez e inépcia. Enquanto Michelangelo pintava-nos na iminência de tocar o dedo de Deus, Copérnico nos ensinava que tocar o além é sentir na epiderme a finitude de nossa existência física. E a virada cosmológica principiada por ele provaria-se apenas o início dos nossos pesares. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Galileu descobre que a Via Láctea abriga milhões de estrelas. E se os pontos luzidios de outrora eram sóis como o nosso, então de fato o filho do Deus não passa de poeira. Do conforto de um desenho divino cujo centro matemático era o nosso umbigo, lançamo-nos à periferia de um cosmos aberto cuja escala é superior até à nossa imaginação. Talvez nosso planeta não fosse o eixo da criação como sugeriram Platão e Aristóteles, mas mero grão correndo as margens do universo em vendaval galático. Toda a coragem dos medidores de sombra, dos cientistas de cenho cerrado, dos sonhos de Giordano Bruno, dos arquitetos cósmicos, tudo isso para descobrir o vale de nosso desencanto num universo que não se preocupa em aliviar-nos o peito pois não há nada ali senão indiferença, nada, nada para nossos anseios, nada para nossos sonhos, nada. O mesmo recurso que permitiu-nos ordenar a criação também conduziu-nos ao descontrole. Fomos de donos do mundo a “idiotas do cosmos”, segundo Peter Sloterdijk. “Por meio da pesquisa e da tomada de consciência”, ele escreve, o humano “mandou a si próprio para o exílio e baniu-se da segurança imemorial que gozava nas bolhas de ilusão auto-construídas rumo ao sem-sentido, ao desconectado, ao automático. Com auxílio de sua inteligência incansavelmente exploratória, o animal aberto arrancou por dentro o telhado de sua própria casa”.7

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Como essas coisas se dão. Talvez nossa inteligência seja robusta o bastante apenas para revelar nossa fraqueza. Ou não foi ela agulha a romper a confortável película dos véus divinos? A virtude da ignorância animal inexiste em nós. Somos capazes de pensar a eternidade e isso não nos torna eternos, mas mortais. E de repente nossos deuses pareciam pequenos demais para a nova amplitude. Adotamos outros então, deuses intergaláticos e estranhos pois não feitos à nossa imagem e semelhança: nebulosas, buracos negros, a matéria escura, a relatividade dos espaços-tempos, os multiversos. Órfãos dos antigos deuses e desviados de nosso destino, amargamos a falta de sentido e o absurdo da existência. E como que assustado pela luz, o bicho humano quedou-se perplexo na imensidão. Pela lógica o humano fez do caos, cosmos. Apenas um hiato momentâneo cuja impressão de ordem não tardaria em cessar. E do cosmos voltou o caos. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Como se não bastasse, a Teoria Evolutiva de Darwin revelou-nos não à imagem dos deuses mas dos primatas. E no século vinte torna-se claro a todos, mediante Freud, que o outrora redentor da criação era sequer senhor de si, pois dono de uma mente em eterno conflito consigo. Já no século vinte e um nossa cultura vulgar é incapaz de fornecer respostas significativas ao mistério da vida. O Eu perde-se num frenesi existencial. O colapso do sentido deu luz a uma abundância de estímulos irrisórios que visam apenas entreter e em troca exigem total atenção e energia. A todo instante nos estimulam, impedido o descanso e colonizando o refúgio. O excesso de informação tem levado a psiquê humana, filha de um tempo remoto, à ruína. Exausto, o sujeito sufoca na película rasa de sua frívola existência. Recusa-se à todo devaneio, impedindo o Eu sequer de sonhar. Ele crê expressar-se mas o agora é tão só o multiplicar do mesmo, onde a falta de opção leva-o a desejar apenas o previsto. Como na ilha de Lotos da Odisséia, ilusões irrestritas confundem os contornos da verdade e seu caminho interior eclipsa. A ilimitude de informação envolve-nos em estranho espectro, próximo à distância, familiar mas remoto. Na falta de peso perde-se também o tato. O eu não mais sabe estar. Quer contemplar mas esqueceu-se como. Alienado de si num mundo em descarte, é fácil dissociar-se da lentidão e silêncio das coisas reais e doar-se aos rápidos ruídos do tempo atual. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Por todos os lados estamos à revelia de forças hostis. Expulso de seu domínio, a criatura perdida sente pulsando em suas fissuras o amargor da solidão. O antes coeso fragmentou-se e ao redor nada parece se sustentar.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Mas quando tudo ao redor é ruína o alicerce final é o Eu. Aquele que contempla o cosmos pode vir a perceber não apenas a terrível vastidão que lhe usurpou o prestígio, mas também o encanto. O prazer de contemplar a imensidão estelar. De ser pequeno num grandioso universo. Pois ali ele descobre algo vasto em si. Nosso corpo, agora sabe-se, não guarda a marca do cosmos mas apenas a debilidade de criatura assustada. Mas em nosso espírito há algo que atrai-se pela amplitude, pois não de todo alheio à ela. Nos esquivos fluxos do nosso íntimo guarda-se algo estranho, incógnito, algo calado e profundo e desprovido de nome, sedimentado por debaixo de toda a precária estrutura da vida do hominídeo moderno constrangido pela própria existência. Primeiro nos amedrontamos na inevitável vastidão. Depois nos redimimos nela. Dentro, descobrimos a imensa espessura de nosso espírito, morada ampla onde é possível desviar-se do frenesi e sorver um tempo suspenso que é tão só silêncio. Nossa própria amplitude interior, tão desconhecida ao Eu quanto as costas das estrelas. Vemos também de olhos fechados. Das ruínas do antropocentrismo há de brotar uma humildade metafísica que não angustia-se frente ao enigma, mas deleita-se em sua potência.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Nos meandros ocultos de sua existência, o humano poderá descobrir respostas indisponíveis à ele nos arcos dos planetas. Dentro jaz o sentido da vida, não fora. Frente ao excesso de respostas, o Eu deve buscar em si a única que lhe importa. Pois na falta de um guia cósmico ou divino, cabe a cada um desvendar a estranha textura de sua singularidade e compor o sentido de sua própria existência. Na falta do Deus somos nós os juízes de nosso destino. O caos não é um poço mas escada à liberdade. Do ilusório controle cósmico ao real controle de si. Uma profunda experiência, uma mudança de perspectiva. Do desamparo ao auto-amparo. Tal é o caminho Sublime. “Sonhamos com viagens através do todo cósmico: então o universo não está dentro de nós? As profundezas de nosso espírito nós não conhecemos”, escreve o poeta romântico Novalis. “Para dentro vai o misterioso caminho. Em nós, ou em parte nenhuma, está a eternidade com os seus mundos, o passado e o futuro. O mundo exterior é o mundo das sombras. Lança suas sombras no reino da luz”.8 No passado os oráculos serviam-se das entranhas de animais para prever o porvir das estrelas. Após Darwin somos nós os animais e usamos o cosmos para desvendar as entranhas de nosso espírito. 


Pareço-me num transe sublime e estranho 

A meditar em minha separada fantasia, 

Minha própria, minha mente humana, que passiva 

Agora doa e recebe fugazes influências, 

Retendo incessante intercâmbio 

Com o claro universo de coisas ao redor.
Percy Shelley9


Mas do que constituem-se as entranhas de nosso espírito? Há os que entendam o humano como criatura perdida entre duas naturezas em conflito. A tensão entre a carne e o espírito, entre a mão e a mente, entre as faculdades sensíveis e as ideias transcendentais. É possível desviar-se do ascetismo e pela estética entender carne e espírito não em oposição mas como par dialético, quem sabe, passível de síntese. O concreto como caminho ao etéreo. Aos que mediante as coisas anseiam ascender a arte pode revelar o caminho. É através dela que o humano expressa-se. Manipula a matéria do mundo para sob a luz contemplar as formas de seu espírito. Pois nossa vida íntima é inconstante e volátil como o são todas as coisas profundas e desprovidas de dimensão. À todo tempo é preciso tatear, através de grandes obras, a escala do coração humano. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; A arquitetura, creio, é de todas as artes a que melhor pode mediar o caminho do Sublime. Como nosso corpo, antes suas estruturas gozavam o estatuto de comunhão ao cosmos. Poderiam ao menos manter a verdade matemática não fosse o advento da geometria não-euclidiana no século dezenove e a Teoria da Relatividade do universo curvo de Einstein. Teria o culto à uma geometria cósmica limitado a expressividade dos arquitetos? Se as ordens geométricas eram guia à moção das estrelas então os delírios de um arquiteto eram tidos como desvios da verdade. Mas as Villas de Palladio não mais representam o espelho da vida celeste. São antes um notório exemplar do engenho humano, assim como tantos outros edifícios desdenhosos de sua áurea geometria. Os Carceri d'invenzione de Piranesi, os canais de Veneza, a capela em Ronchamp de Le Corbusier. Com a queda da crença na verdade a estrutura que a representava perde primazia. A arquitetura já não pode espelhar os padrões do firmamento. Mas pode suscitar a atmosfera Sublime, a mesma que guardamos informe em nosso espírito. Pois mesmo nos corações onde se perdeu a crença numa verdade ainda mantém-se a ânsia de tocar o além.

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Mas o além está ao além. Fora de alcance. Pois se a matéria permite a jornada ela também a limita. O que encontra-se então não é a transcendência mas a superação. Na amplitude descobre-se a real medida de nossa existência. Dos capilares de sua atmosfera talvez brote o impacto estético do Sublime para despertar da letargia aqueles que anseiam as esferas mais significativas da existência. Sob a epiderme sentirão todo o bálsamo da expressão, da autenticidade. Arquiteturas de matemática euclidiana ou não-euclidiana ou mesmo desnudas de pretensões numéricas: seu valor depende não de uma convenção mas na potência de sua autonomia, na forma pela qual ousa exprimir a angústia de se estar vivo num universo cuja mecânica supera o entendimento. Uma arquitetura do desamparo, que acolha o descontrole. Uma arquitetura do Sublime. 

&#38;nbsp; &#38;nbsp; Não sou capaz de exprimir a experiência do Sublime sem constrangê-la com palavras. Instante fora do tempo, jornada inviável à tudo salvo o silêncio e a solidão. Posso apenas espantar-me com seus paradoxos. E recontar algumas das tentativas de invocá-la, explorar o espírito de seu porvir, descrever seus artefatos construídos. A Torre de Babel, o misticismo, as catedrais Góticas, a angústia romântica, o sujeito coibido na cidade industrial, a Regeneração Estética, o método Bauhaus e a queda da transcendência, a sociedade do desempenho, as montanhas e seus templos de cristal contemplar. A busca do solitário humano por algo a mais e sua improvável redenção. 


Não hemos de cessar a exploração 

E o fim de todo nosso explorar 

Será chegar onde iniciamos 

E conhecer o lugar pela primeira vez. 

Através do desconhecido, lembrado portão 

Quando os últimos da terra deixados a descobrir 

É aquilo que era o começo; 

Na fonte do mais longo rio 

A voz da oculta catarata

E as crianças na macieira 

Não conhecidas, pois não buscadas 

Mas ouvidas, entreouvidas, na quietude 

Entre duas ondas do mar.
T. S. Eliot10&#38;nbsp;




&#38;nbsp;NOTAS
1. ECO, U., O Nome da Rosa, p. 41.2. BORGES, J. L., O Imortal In. O Aleph, p. 19.3. KIERKEGAARD, S., Nabucodonosor In. Stages on Life’s Way, p. 360.
4. VON NETTESHEIM, A., De Occulta Philosophia In. Alquimia e Misticismo, p. 431.
5. WREN, C., From the Parentalia In. The Mathematics of the Ideal Villa, p. 2.

6. ROWE, Colin. The Mathematics of the Ideal Villa, p. 8.
7. SLOTERDIJK, P., Bolhas: Esferas 1, p. 23.
8. NOVALIS, Pólen: fragmentos, diálogos, monólogos, fragmento 17.
9. SHELLEY, P., Mont Blanc. Lines Written in the Vale of Chamouni. Tradução do autor. Versão Original: I
seem as in a trance sublime and strange / To muse on my own separate fantasy, / My own, my human mind,
which passively / Now render and receives fast influencings, / Holding an unremitting interchange / With the
clear universe of things around.
10. ELLIOT, T. S., Four Quartets, Little Giding, Ato V. Tradução do autor. Versão Original: We shall not cease
from exploration / And the end of all our exploring / Will be to arrive where we started / And know the place
for the first time. / Through the unknown, remembered gate / When the last of earth left to discover / Is that
with was the beginning; / At the source of the longest river / The voice of the hidden waterfall / And the chil-
dren in the apple-tree / Not known, because not looked for / But heard, half-heard, in the stillness / Between
two weaves of the sea.

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