De Lábios Fechados


Há uma noite que se descobre quando olhamos um homem nos olhos — mergulha-se então o olhar numa noite que se torna terrível: a noite do mundo que avança ao encontro de cada um de nós.
Hegel

I

Quão frágeis são os galhos das árvores sob os golpes do inverno! Como pode a vida manter-se assim, agachada como um servo e raspando no fio dos dentes os tubérculos frios, engolindo lascas, sua memória agarrando-se vacilante ao gosto de um sol que, tão generoso, regou o mundo no verão? Como resistir na terra onde as águas queimam e os ventos cortam, onde o marasmo da neve sufoca as delícias do solo, onde o sol não sobe o céu e sob a foice da lua a miséria ceifa as melhores intenções do espírito humano?
    Sob o ranger dos plátanos seguiam famintos uma lenhadora e sua Criança. Há dias buscavam comida. A Mãe vergava sob as largas vestes, suas mãos ocultas nas mangas do casaco e firmadas sobre o punhal de um machado cuja lâmina fria queimava-lhe as costas. Aguçava os sentidos em busca de pistas, resíduos de vida ocultos na miséria da paisagem. A Criança perdia-se em devaneios. Sua pequenez permitia-lhe manter apenas os olhos acima da camada de neve, que rompia com o peito, seu coração batendo contra o gelo. Uma luz frouxa diluía-se sobre o dorso do mundo, e as bordas foscas das árvores luziam pálidas. A Mãe em tudo repara quando, numa fresta entre os troncos, vê uma estranha anatomia que não parece pertencer. Há algo ali. Ela segue adiante, sozinha e de metal em riste. Seus passos metódicos, apáticos, volteiam a árvore. O que encontra dobra-lhe os joelhos.
    Um porco. As patas seguras, o peito estufado, as costas esbeltas. Suas formosas banhas dobrando-lhe a pele como as vestes das madonas no mármore, escondendo nos vincos da carne a fartura do mundo, conservando-a da aridez glacial. Como podia tal criatura estar ali, desta forma rosada, saudável, opulenta? Ajoelhada, a Mãe parecia a devota de um invencível ícone, impecável no auge do inverno, jamais perturbado pelos golpes da natureza, qual rocha eterna imune ao acaso ou destino, auto-realizada em sua resistência. Ao lado surgiu a Criança, mas não espantou-se como a Mãe. E devagar deitou o dedo no peito do animal, mas súbito o recolheu. Habituados ao frio, seus músculos estranharam o calor daquela pele. Ela estudou o seu semblante. Então sentou-se na pedra, deitou a cabeça do bicho em seu colo e manso o manteve ali, mesmo quando o inverno agravou-se, mesmo quando a sua Mãe buscou afastá-lo do animal, mesmo quando ela lembrou-a da Fome e berrou e implorou e enfim levantou o metal para golpear o porco, que em pânico tentou escapar. A Criança apertou o abraço e impassível contemplou a lâmina reluzente. E a Mãe pousou o machado e correu os dedos pelos cabelos da Criança, conformada à sua vontade.

II

Em casa a Criança serviu-lhe alguns dos grãos que ainda mantinham no fundo do vaso. Depois banharam-se juntos e pode sentir melhor a pele flácida, as rugas da carne macia, os pelos finos da serena criatura que parecia entender tão bem o mundo humano, suas coisas e processos. Ao fim envolveu-a num lençol e rindo viu o porco vestido cruzar a sala e sentar-se na poltrona ao lado da lareira, onde também o seu Pai costumava sentar. À tudo isto assistia a Mãe, que apoiada no tampo da mesa sentia-se cortada em dúvidas. Com a ponta dos dedos sobre o fio da lâmina meditava se a Criança perdoaria-a caso cortasse o pescoço do bicho. Sentia a Fome crescer a cada afago entre os dois. Agora eram três as bocas, os grãos rareavam e o inverno gemia nas janelas. Ainda assim, ainda assim. Nada mal o alívio de ver a Criança abrir-se. De vê-la alegre enfim. Pois abandonados num bosque milenar viviam, onde nada persistia que não fosse hostil. Talvez houvesse ali a chave para despertar na Criança um sabor mais doce.

III

E no calor do animal a Criança conservou-se. Não tardou para tecerem uma intimidade só cultivada no silêncio. Como se o hálito partilhado entre os dois fosse uma espécie de âmbar onde o tempo suspende e pode-se acessar as camadas mais ocultas. No vasto mel de seu sigilo sorviam um tempo mais lento e macio, na espessura cristalizado. Pois a Criança sempre sentiu que faltava algo em suas falas. Por toda a sua vida algo mantinha-se calado ao fundo. Era incapaz de expressar aquilo que revolvia em seu âmago. Descrever as coisas era substituir o original por um retrato empobrecido. As palavras eram rasas, como gotas de chuva no oceano de seu espírito. Sua Mãe interpretava-a soturna e esquiva, mas como poderia a Criança explica-la a sua apatia frente à aspereza do mundo, quando esta violência era composta por estrutura tão sutil? Ela jamais decidira fazer parte, enquanto a Mãe caminhava resoluta entre a carne das coisas. Ocupava-se demais com os males do mundo e os males do mudo haviam embaçado o seu espírito, desbotado a sua ternura. Alienada, a Criança abdicou da fala. Mas agora era justo o silêncio a vereda perfeita. E o animal entendia — nele, espelhava-se translúcida. Tudo o que na passividade do porco a Criança lançava rebatia de volta à si, imaculada pela estupidez do bicho. Tão vasta era a delicada tessitura de sua amizade.
    A Criança punha o animal ao pé da cama e vestia-o com as roupas do Pai. Já não lembrava-se bem do homem que os desertou mas ainda tinha as suas roupas, seu aroma abafado. Punha na besta coletes e luvas, cintos e calças e botas e chapéus. Ao amargor que o Pai despertava-lhe o porco adicionava notas de uma ternura doce demais para suportar ser dita, portanto calava-se alegre com o escândalo da imagem pois o animal parecia acolher as vestes com inesperada fluidez. Por instantes e sob certos ângulos a Criança sentia como se o porco de fato já houvesse vestido estas roupas, e gostava de nutrir a ideia, embora soubesse do seu disparate — ou mesmo por causa dele. De fato, o espetáculo do caimento das vestes sobre a sua gordura dava ao animal um delicioso sossego, um conforto que folgava o arco de sua face e não escapava à Criança. Talvez, pensava, algo emanasse dali, algo que transbordava o corpo da besta.
    Enquanto isto, o inverno ia alto e sobre a borda do vaso quase vazio a Mãe viu a Fome enfim emergir, que veio lenta pelo assoalho e beijou a sua barriga e pousou a cabeça em suas costelas.  

IV

Certo dia a Criança notou algo distinto na face do animal. Examinava-o sem saber ao certo o que buscava. Mas algo havia-se alterado. Algum traço oculto eriçava ao além de sua curva habitual e, em meio à trama de linhas que tece o formato das coisas, a Criança tentava pinçar o fio atonal. O que seria? Até enfim deitar os dedos sobre os lábios do porco. Abriu-os. O que viu dilatou as suas pupilas e travou as suas sinapses e por instantes as bordas do ambiente desfocaram para ajustar o mundo ao que via, acolhendo-o ao real, confirmando como genuíno o que antes julgava impossível. Os dentes do porco haviam mudado. Não mais pontudos e finos, mas grossos e curvos como os dentes humanos. A Criança retraiu as mãos e desviou os olhos à aresta do quarto. Sentiu-se aérea, embriagada. Seus tímpanos latejavam. Respirou fundo e correu a mão pelos cabelos e voltou a vista ao animal, que fitava-o. Levantou-se e desceu as escadas. Queria exilar-se, ajoelhar no altar da solidão para, longe de tudo, acostumar-se ao absurdo. Mas o porco seguia-a. O raspar de seus cascos no piso de madeira foi-lhe repugnante. Fechou o animal em casa e acolheu o vento polar, e sob o arco cremoso do céu banhou-se numa luz baça similar à brancura da neve, que dissipava o horizonte e fazia do mundo uma esfera desprovida de eixo. Deixou a sua mente afrouxar com as longas elipses deste anárquico mundo, que girava misturando todas as coisas.
    Passou algum tempo até a Criança voltar à boca do animal e confirmar o que vira. Encontrou também uma língua humana.

V

Disto a Criança induziu que talvez também as suas cordas vocais haviam-se alterado, que talvez o animal fosse logo capaz de modular sons humanos, e quem sabe, falar. Mas dias passaram-se e o porco nada disse. Podia-se quase esquecer a sua nova anatomia bucal, salvo quando a criatura guinchava ou ofegava e a Criança entrevia as orlas de seus dentes sob os espessos lábios. Tentou então dispensar o espanto e seguir os dias como de costume, embora já não fantasiasse o animal, que no entanto fuçava as roupas no chão, para vestir-se.
    A Mãe nada notou. Passava horas abraçando-se, fechada sobre si, tateando a anatomia de sua Fome, sentindo-a abrir as asas gélidas sobre a parede oca de seu estômago e ecoar os salmos de uma nova existência onde tudo é remoto e nada persiste, nada se retém pois a epiderme do mundo havia-se alisado, nada guardava solidez, o âmbar da vida escorria, desperdiçado.

VI

E certa manhã a Criança, que dormia com o porco, sentiu no rosto não a casca grossa de uma besta mas pele macia, como a que ela própria tinha no interior das coxas. Abriu os olhos e notou que a pele rosa do animal continha agora tons mais claros. Voltou-se à janela e viu a luz fantasmal da manhã embaçar os contornos das coisas, e atribuiu a mudança cutânea ao astro. Mas o porco virou-se e o que ela viu no animal foi sobrancelhas mais volumosas, orelhas mais abauladas, dois mamilos redondos de bico estreito, e mais: pequenos gânglios na pata direita — cinco nódulos redondos despontando para fora da epiderme, sebosos e vermelhos, ainda informes, como se o ato de construção corpórea ainda estivesse em curso, e o que surgia ali? Rápido cobriu a cena com o lençol da cama e examinou o quarto, à procura da Mãe. Ninguém ali estava. Aliviada levantou-se e fechou a porta. Para cobrir as mudanças voltou a vesti-lo com as roupas do Pai, que o animal de bom grado aceitou. E atou a pata do animal, preservando a mutação.
    À noite, quando a lua ia alta, removeu a atadura. Encontrou uma mão humana. Sem saber ao certo a razão, entrelaçou os seus dedos ali. E jurou sentir um tímido aperto.

VII

Com uma folha sobre a mesa, a Criança pousou o porco no colo e deu-lhe um pincel. Ele não soube segurá-lo. Em sua mão englobou a mão do animal e ali fixou o objeto, na esperança da criatura que nada dizia falasse por outro canal. Por muito tempo manteve-se ali, como num transe à espera de uma palavra, um desenho, um risco cujo aspecto denotasse algum traço de humanidade, de elipse mais resoluta do que os garranchos das bestas. Qual seria a linha que divisa os animais dos humanos? A criatura move o pincel, ou seria minha a mão que conduz?, pensava. Os esboços do animal eram como um urro abafado por detrás da cortina, como um feto em unhas lanhando a placenta, havia ali no verso uma pulsão na ânsia de libertar-se. Ou só memória muscular, talvez. Sendo assim, o pulsar que sentiu quando entrelaçou-lhe a mão seria mero lapso involuntário? Mas então que lembranças moviam os músculos da criatura, do leito de que passado ela extraía os vultos de seus gestos? Haveria ela sido, em dias longínquos, mais que uma besta? Pousou o pincel e abraçou a criatura. Adormeceram sobre a mesa.
    No andar debaixo a Mãe embriagava-se em lânguida sonolência, fixada no prato que havia arranjado à Criança. Os últimos grãos da casa dispersos no esplendor da cerâmica de bordas circulares, como as fronteiras enfeitiçadas de um território à Mãe proibido. Ela ajoelhou, humilhada ante a pequenez daqueles grãos. E da polpa de um dos grãos  ela viu brotar uma luz cujo calor tremulante revelou-lhe delicioso augúrio: sentiu a carne do porco em seus dentes, sua gordura boa na garganta, escorrendo em sua cara na casa nas paredes do mundo, untada e ungida pelo próprio Deus, e seja bendita vossa gloriosa banha, derrama, ó Deus, sobre mim a tua graça, o teu nutritivo néctar pois agora entendo, o porco é teu anátema, ó suíno que tiraste o pecado do mundo, remova também a Fome ao consagrar a minha barriga! E o fio de seu machado brilhou com o fogo brando do arcanjo mais gentil do Senhor e não queimou a sua mão quando ela segurou-o.

VIII

A Criança meditava sobre a condição do animal. Seguindo a metamorfose o seu curso, dali brotaria, era lógico pensar, um humano. Enfim alguém não só dotado do recurso da expressão mas que também o conhecesse por inteiro, que houvesse fitado as minúcias de sua natureza com a sabedoria compreensiva dos animais. A relação entre os dois transcenderia assim o teto das interações humanas. Em silêncio a Criança havia revelado a sua alma arcana à criatura. Logo poderia, enfim, recebê-la de volta, decifrada por alguém que partilhava da sapiência das bestas e dos humanos, um monstro sagrado que cruzara as margens da natureza, que riscara as suas leis, que desprezara os seus dogmas. Qual seria o veredicto de tal criatura, sua mais nobre amiga? Tanto tempo deitando o seu espírito no leito desta amizade. Ver-se enfim refletida sobre o espelho de tal consciência parecia-lhe um evento tão singular quanto a primeira vez em que uma face humana contemplou-se na superfície de um lago de águas claras. Qual seria o juízo das bestas sobre o espírito humano? Sua inclinação filosófica ao misterioso devorava-a viva. E no entanto havia algo mais, esquivo e quente na base de sua garganta. Talvez a sua euforia, seu assombro, não se resumissem à investigação científica. Pois por detrás da aparência do animal, nas nuances de seus gestos e no matiz de sua aura havia um estranho subtom, um acento fantasmal que lembrava-a daquele que em sua vida foi primeiro deus depois ausência, que ao partir em sigilo deixou formigando nos ares da casa o rancor e a repulsa, o anseio e a melancolia. Aquele cuja falta tornou-se um núcleo ao redor do qual a Criança girava todo um mundo encantado por coisas à ela desconhecidas. Seria este animal algo mais que mero humano? Seria ele o seu Pai? E fosse ele o seu Pai, teria a sua essência mantido-se inalterada pelas mutações físicas? No turbilhão humano, qual seria o real teor do toque entre espírito e corpo? A mudança do corpo implica na mudança do espírito? Há em nós um cerne inalterável, cristalizado em nascimento ou mesmo antes e imaculado pelo porvir e acaso? Ou seria o nosso âmago um fermento selvagem que integra ao seu volume todos os eventos, por menor o seu vestígio, fazendo do humano a massa passiva das pegadas do mundo?
    Para todas estas questões de distintas naturezas, pensou, haveria de receber uma resposta quando a metamorfose concluísse.

IX

E houve um dia em que a Criança viu algo novo naqueles olhos. Um brilho ali emanava, na espessura das retinas, um algo transitava em seu íntimo, pulsando enterrado nas areias do ser, este lampejo, gaguejo, este risco ou erro evolutivo, este elã que açoita os nossos anseios, um vibrato nas pupilas, este ardor ou maciez, este cansaço ou desconforto que talvez mal interpretemos como a existência do eterno, este peso, esta leveza, um lapso um lume não ao todo distinto daquele que a própria Criança e sua Mãe carregavam ou que via riscar os olhos do Pai quando o inverno virava e o meridiano soprava os orvalhos do campo e os cavalos batiam as crinas na orla do rio, sob os plátanos. O que a Criança entreviu nos olhos do animal foi um nada, foi um tudo, a menor e a maior das mudanças. Ali testemunhou a travessia da criatura, enfim mais humana que porco. Pela primeira vez estava diante de um igual. Sentia nas costas um calafrio e no peito uma forja quente, sua garganta estreita e seu estômago largo. E nos olhos da Criatura ela viu uma vastidão em muito mais profunda que o espelho de águas claras onde pensava encontrar-se. Na membrana daquelas retinas havia um abismo de leito oceânico e escuro que, temível, convidava-o. A Criança ansiava uma resposta mas o que via agora era um enigma, ela queria ser decifrada mas encontrou alguém que, assim como ela, desconhecia-se. E quem seria este alguém? Acercou-se da Criatura.

X

No dia seguinte a porta do quarto abriu-se. A Criança notou o machado no ombro ossudo da Mãe, que levantou a lâmina. E a Criança nada fez, seus olhos duros travados no nada. Agora a Criatura não espantou-se. Estendeu serena o pescoço ao chão para receber o golpe. Caso a Criança não tivesse alienado-se no canto do quarto talvez penetrasse os olhos da Criatura e ali mergulharia na mais bela calma, onde a iminência da morte faz tudo convergir e revela ao moribundo a topografia secreta de sua vida, seu passado esquecido, seu desfecho inevitável e também vislumbres do além, como um grande olho aberto alternando-se entre os países dos vivos e dos mortos. Ou talvez a Criança perguntasse se ali morria o seu Pai. Difícil saber se notou o barulho seco da lâmina sobre o assoalho, ou os estalidos do porco no fogo da lareira, ou o sabor inusitado da carne, que assemelhava-se à suína, mas guardava notas de outro tipo. Salvaram-se mastigando-a como autômatos carentes do lume que anima nos corpos o risco do eterno.
Mark

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